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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

Ano Novo

30.12.22, Olga Cardoso Pinto

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Não esperemos que o novo ano traga mudanças, elas começam em nós. 

Se desejamos Paz no mundo, que haja paz dentro de nós, na família, e com aqueles que nos rodeiam. Se desejamos Empatia e Compreensão na nossa sociedade, que elas existam primeiro nas nossas atitudes. Se queremos Prosperidade, empenhemo-nos para tal acontecer.

Tenhamos vontade para melhorar o imperfeito e mudar o incorreto. Cada um pode ser o diferencial. Nunca pensemos que só um não tem importância, um e mais um e outros tantos fazem a diferença e a mudança, de comportamentos, de atitudes, de melhorias - de progresso para que cada ano novo seja melhor.

Bom Ano Novo de 2023!

O meu obrigada pelas vossas visitas, pelo vosso apoio e carinho. Encontrar-nos-emos no próximo ano.

 

 

Ele chegou!

O Inverno

21.12.22, Olga Cardoso Pinto

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21 de dezembro

Ei-lo novamente! Engalanando de geada que, tal como filigrana, vai adornando finamente cada pedaço da Natureza. Das árvores despidas de folhas, nascem adereços de cristal em forma de pêndulos de gelo. A neblina adensa-se deixando tudo envolto em mistério. Os sons são secos, abafados por este inevitável corolário.
Tudo é calma, serenidade. Ouve-se ao longe um piado longo, em grito, é uma coruja que desabrigada do seu esconderijo vem recebê-lo.
Escutam-se passos, arrastados, restolhando sobre a camada de folhas secas, ele está aí. Pesado no caminhar, mas leve na presença. Traz consigo, envolto pelo seu longo manto, as joias da humanidade: a Esperança, a Saudade e o Recolhimento. Pela mão enluvada conduz ternamente a Perseverança, que cresce em cada caminhada feita pelas cidades, pelas aldeias deste Mundo.
Quantos nascimentos acolhe em si, vidas novas outras longas! São vidas de seres fortes, resilientes os que nele vieram ao mundo, pois não poderiam ser de outra forma, de outro espírito os que escolheram nascer no último mês do ano, o mais frio e também especial.
Vem cansado, para e arqueia o largo peito num respirar fundo, deixa o cajado que o ajuda a caminhar encostado ao velho sobreiro e senta-se no que outrora fora uma altiva árvore. A Perseverança aproveita a pausa e corre a brincar, juntando folhas para lhes cair em cima, aos saltos, soltando risos de contentamento. As árvores enfeitam-se de aves que trinam em uníssono a canção do Inverno, despedindo-se do irmão Outono.
Ele consola-se ao vê-la brincar, tem ainda tanto para crescer! Com gestos calmos tira do interior do manto as três joias. Estas, sentindo o calor da sua mão já sem a luva que a cobrira, adensam-se de luz ganhando uma intensidade tal que ofusca o olhar. Ele sopra e elas dispersam-se na neblina.
O azevinho começa a crescer, como por magia, onde ele se sentou, entrelaça-se nas suas pernas e estende-se pelo tronco oco e sem vida, depois continua a medrar pela berma do caminho.
O dia está a chegar ao fim. Ele cobre-se com o manto e funde-se na árvore anciã, naquele tronco do que foi e que agora é novamente Vida.
Acendem-se as luzes no bosque, nas cidades, nas aldeias e no Mundo.
O Inverno chegou!

 

Foto: Aldeia de Brufe, Terras de Bouro, Braga

 

Feliz Natal🎄

20.12.22, Olga Cardoso Pinto

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Um passarinho poisou no ramo de azevinho, trinou uma bela melodia anunciando que algo único emergiria, algo brotaria no mais recôndito de cada coração, algo mais poderoso que um querer ou oração.
Cantarolou até ao final do dia para que o mundo o ouvisse e assim se ligasse por um fio invisível cada emoção humana, animal e vegetal, de solidariedade, respeito, amor e paz. Para que se fizesse Natal…

Votos de Feliz Natal,
Boas Festas,
       Olga

 

Prendas de Natal

Livro infantil ilustrado

14.12.22, Olga Cardoso Pinto

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A magia do Natal já paira no ar. O entusiasmo e a alegria dos preparativos começam a enroscar-se na nossa memória. São os enfeites, os acepipes que aconchegarão as famílias à volta da mesa e a escolha das ofertas para serem trocadas.
A lista de presentes ganha volume! Questionamos o que oferecer. Procuramos algo diferente, nada de repetir presentes, mas o que oferecer especialmente às crianças? Livros, livros, livros! Sim, a magia e a alegria do Natal estende-se aos livros, até sugiro ler um livro após a Consoada, enquanto se espera pelos presentes, e também após o almoço do Dia de Natal. Haverá melhor programa junto à lareira ou no quentinho de uma sala, magistralmente perfumada pelo cheirinho da canela, do que ler um livro infantil? Rodearmo-nos dos mais pequeninos da família e encantá-los com a leitura de uma bela estória? Vivenciem a alegria de vê-los atentos, de olhitos postos em nós, enquanto lhes lemos um belo livro nesta quadra natalícia!

O Ministério das Criaturas Fantásticas é um livro natalício.
Inspirada em personagens do folclore português, a narrativa revisita o mundo das fadas e de seres fantásticos que interagem com o mundo real, na tentativa de salvar da extinção o maravilhoso mundo da fantasia. 
Escrito e ilustrado para inspirar as crianças à leitura e ao desenho.

Ofereça livros, as crianças agradecem.
Se pretende este livro autografado e com dedicatória, envie mensagem.

BOAS FESTAS!

 

Contos de Natal 2022

Um ramo de azevinho

13.12.22, Olga Cardoso Pinto

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Vou contar-vos uma estória sem tempo nem lugar. Perdeu-se no novelo dos séculos o pormenor que fazia dela uma estória pessoal. O tempo pode tudo e não pode nada. Pode curar e transformar, mas esquece e basta o sopro de novas vidas para que se perca o rasto poeirento das lembranças. Mas a natureza lembra, mesmo a mais ínfima lembrança deixa-a a vogar no cosmos…

Tudo começou numa manhã de primavera.

Estamos dentro de uma casa, antiga, arrumada. O sol entra pela janela da fachada frontal. Os raios brincam no soalho de madeira, num jogo de esconde-esconde com as sombras e as partículas que cintilam flutuando no ar.
De costas para nós, uma mulher de meia-idade apoia-se na ombreira da porta. O cabelo já com algumas cãs que lhe enfeitam as madeixas doiradas, está preso displicentemente num carrapito. As suas vestes são longas, denotam os anos vividos e remendados pelas sedosas mãos pequenas. Ela acena pesadamente. A luz do exterior, daquele sol que entra no conforto caseiro, não nos deixa ver a quem acena. Alguém que parte? Alguém que chega?
Aproximemo-nos. Agora quase de ombro colado ao dela, vemo-lo! É um jovem que também acena. O rosto triste contorcido num esgar, num sorriso forçado para a mulher que o desprende de si, num cortar de ligações feito cordão umbilical que perdura. Vai fardado, transformado em valente guerreiro, revelado por uma arma a bandoleiro e o cinturão que lhe cinge a cintura, ajeitam-lhe o destino.
Ela traz nas alvas mãos um lenço bordado, certamente por si para o enxoval. Junto ao fino rendado do linho as iniciais S e M, devotamente bordadas e rematadas por diminutas e cândidas flores. Com o pequeno lenço acena e quando ele lhe atira um beijo e não resiste volta atrás para a beijar, ela enxuga as lágrimas, essas pérolas que tristemente nascem dos olhos cerúleos quase céu, quase mar, quase destino deste filho que parte.
O abraço com que se prendem, com que desenlaçam os seus destinos, sabe-lhes a breve e a dor funda como uma facada.
— Adeus, mãe… — desprende-se ele daqueles braços-ninho, contendo os soluços quase infantis e de olhos marejados de água.
A mãe, de jeito suave, guarda-lhe dentro da casaca, bem juntinho ao coração, o pequeno lenço de linho. Colhe um mendinho ramo do azevinheiro e prende-o à abotoadeira. Dá-lhe um beijo na face imberbe e sussurra-lhe:
— Deus te guarde, filho meu! Vai…e que o teu anjo da guarde te traga de volta para mim…
Afastemo-nos para lhes dar privacidade, embora tentados a ficar pelo perfume a alfazema que se evola daquele belo lenço!
No canteiro, junto à frondosa janela, desabrocharam as graciosas flores brancas do azevinho, como querendo testemunhar a triste partida, guardando para elas a memória de uma primavera triste onde os pássaros cantariam por obrigação, o sol brilharia envergonhado e todo o esplendor primaveril ficaria embaçado pela mágoa desta mãe.

As estações foram rolando. O ano foi passando num desfiar atormentado. A mãe nada sabia do filho – se chegara, qual o destino? Ferido, onde estava? Morto – Vivo? Morria ela pela ausência de notícias, pela solidão a que se entregara. Da sua bela boca, de lábios finos e torneados, só as orações se assomavam. Naquelas pequenas mãos talhadas para o delicado labor do bordado, só o rosário as afagava num desfiar contínuo e persistente.
“Morto não estás…sinto-o no meu peito, no meu espírito…, mas onde estás?” — repetia constantemente. Saber de mãe é forte e douto, pois trouxe dentro de si o ser ao qual a sua alma está costurada numa fina e resistente filigrana do mais puro ouro. Se algum destes finos fios for puxado, mãe e filho sentem como picados pela agulha que os costurou.

Hoje ela está dormitando. Ficou assim entregue ao remanso da tarde, sentada no banco-arca que a acolheu para bordar. Reparem como é doce o seu rosto. Ela sonha, com certeza, pois sorri e os lábios balbuciam algo impercetível…será com o filho que ela sonha? Dizem que os anjos nos falam quando sonhamos e sorrimos.
O silêncio impera na casa. É outono. Um outono ameno que amadurece as abóboras, as romãs, os dióspiros, as tangerinas…o quintal está repleto de aromas e cores. As aves tentadas com os profícuos alimentos estão inquietas, esvoaçam e volteiam perto das árvores. Mas cá dentro, na acolhedora cozinha, nem mosca nem moscardo se ouvem. Demoremo-nos a apreciar o antigo escaparate que ainda se empoleira autoritariamente na parede. Moram lado a lado as canecas para a cevada da mãe e do filho. Há outra, mas nota-se que o uso a esqueceu, embora limpa, continua imóvel desde alguns anos, sem o préstimo que o proprietário lhe dava. Seria do pai do rapaz? Que é feito deste pai cujo filho se lhe deve assemelhar? Tristes famílias amputadas de pais ou mães e também de filhos que partem sem volta, ou esquecidos de retornar…
— Sara…Sara… — alguém sussurra.
— Sim!? — acorda a mulher, soerguendo-se e olhando em volta procurando quem a chama. — Devo ter sonhado… — fala em voz alta para si, mas algo a interrompe e ela deixa cair o bordado. Nada vemos, porém, parece que Sara vê alguém lá fora e sai estancando junto ao canteiro do azevinho, já enfeitado por pequeninas drupas vermelhas.
— És tu António? Fala…que tens? — a voz embarga-se e ela em desespero, como apercebendo-se da falsa realidade, volta a perguntar insistentemente:
— Onde estás?

Sabemos que Sara um dia partiu. Era dezembro, numa madrugada geada. Deixou a casa arrumada. Os gatos entregues à vizinha. Os pertences mais valiosos deu-os à prima. Na igreja, junto ao altar da Senhora, deixou um ramo de ásteres brancas atadas com um lindo fio tricotado. No altar de São Miguel Arcanjo, depositou um singelo raminho de azevinho com os mais belos e reluzentes frutos. No presépio, acendeu uma vela e fez a oração que há muito se desfiava em pedidos de proteção e auxílio.
Sara partiu para o mundo. Um mundo que desconhecia para lá da sua casa, do quintal, da floresta, do pequeno país. Foi sem bússola, sem mapas, sem meios de navegação, somente os pés, a mente, o espírito e aqueles olhos que viam para lá da realidade palpável. Quando a fome e o cansaço venciam este querer de aço, confiava na providência, confiava que algo ou alguém lhe acudisse às vicissitudes. Tinha fé, mais tarde ou mais cedo lá encontrava quem com ela partilhasse o alimento e o lugar do descanso.
Certo dia invernoso, daqueles em que a borrasca impede de todo o ser vivo andar desprevenido e abrigado, encontrou uma gruta. Lá dentro era breu, tenebroso, mas depressa os seus olhos da cor do céu encontraram forma e voz.
— Podes abrigar-te aqui se não queres ficar em gelo…
Sara entrou, cautelosa. A voz era cava e forte, masculina, aparentando já uma certa idade.
— Obrigada por me deixares partilhar este abrigo. Queres uma maçã como em agradecimento?
O som de pés a arrastarem-se entoou pela caverna. O cheiro era forte e acre, mas inspirando suavemente dir-se-ia com laivos a madeira envelhecida. Sara baixou os olhos e estendeu a mão. Sem se sobressaltar, viu que a mão - se assim se poderá dizer – que agarrou delicadamente a maçã, era estranha, nodosa parecendo um ramo, com pequenos galhos entrelaçados, contorcidos, que se volteavam consoante o movimento. De súbito, vindo da escuridão, surgiu um pequeno esquilo que agarrou na maçã e saltitando desapareceu.
Sara sorriu, aconchegou-se no manto de lã e deixou-se ficar apreciando a neve que principiara a cair sobre a mata. Acabou por adormecer. Quando acordou, já manhã, o sol raiava. A neblina depositara-se rente ao solo branco e fofo. Junto aos pés, numa enorme folha verde, estavam alguns cogumelos, medronhos, castanhas e carnudas bagas pretas.
Quando se voltou para agradecer, tornou a ouvir a voz:
— Só quero que partilhes a tua estória para que aqui fique gravada, guardada na memória do tempo da natureza. Depois podes prosseguir o teu caminho.
— Procuro o meu filho. Esta é a minha estória. Partiu para a guerra de um senhor, fidalgo de grandes riquezas, que são cobiçadas por outro senhor poderoso. Matam-nos os filhos, os maridos, os sonhos e a felicidade. Ficamos nós as mulheres, as viúvas, as órfãs…e aquelas que são mães de filhos mortos que não têm nome que as defina.
Sara chorou pela primeira vez. Sentiu que a represa dentro de si se abrira, se rompera numa explosão de lágrimas salgadas que sulcavam o rosto doce, pálido pela tristeza.
— Teu filho morreu? — perguntou o ser, aproximando-se e poisando no ombro de Sara aquela mão estranha.
— Não o sinto morto. Mas começo a duvidar deste meu sentir. Quero-o tanto vivo, que receio já não ter discernimento…
— Crê no que os teus olhos te dizem. Não são eles o espelho da alma? O que vês então?
— Azevinho, senhor.
Mal a mulher o disse, o ser estendeu para ela um pequeno ramo de azevinho, lindo, de folhas intensamente verdes, carregadinho de drupas vermelhinhas parecendo rubis.
Podemos vê-la de boca aberta de espanto. O entendimento iluminado e a alma em júbilo.
Recolheu o azevinho oferecido, enfeitando com ele o trespasse do xaile. Vestiu o capote e partiu para nova caminhada. Correr o mundo. Subiu montes, desceu vales, contornou montanhas, viu o nascer do sol sobre o escarpado mais alto deste planeta, tornou a descer junto ao leito do maior rio da terra e não perdeu o mais intenso pôr-do-sol na ampla savana. Orou então ao anjo, seu protetor e do filho, que a guardasse para encontrar aquela sua metade perdida no mundo, em batalha ou ferido, desacordado de si ou esquecido dos seus abraços.
Confiou nos seus olhos e voltou-se para o interior, para o seu espírito, e viu o seu António, longe e indefinido como névoa. Semicerrou estes espelhos cerúleos onde estava refletido o querido filho e conseguiu definir ainda mais a visão – António sorria para ela e chamava-a, na mão tinha o lenço de linho…


É véspera de Natal. A noite cai célere pelos caminhos. Todos recolhem ao aconchego dos lares procurando o conforto. A lua está escondida, iluminando o céu somente uma intensa estrela que pulsa como o bater do coração. Lá longe, os cães ladram, pressentindo o estranho que vagueia. A coruja impelida pelo latir, pia três vezes e esvoaça tentando descortinar quem vem lá.
Sara caminha a custo e tropeça várias vezes. São muitos os anos que carrega em cada célula do seu corpo. No seu rosto está estampado o cansaço, a vida vivida em constante busca. Perdeu o viço e a cor. É um despojo humano potenciado pela incessante caminhada que se tornou a sua vida, pela busca do filho que não voltou.
— Sara…Sara…
A mulher ouve o seu nome, ainda faz um esforço de elevar o rosto para ver quem a chama, mas nada vê. Curvada, agarrada ao bordão que a segura ao caminho, para. Tenta endireitar as costas, respira fundo. O ar exalado vai espiralando pelo ar como um fantasma. Sara alonga o olhar para a torre da igreja e afina-se a silhueta do arcanjo que parece saudá-la do alto. Sorri e retoma o caminho.
A estrela parece acompanhá-la. Repentinamente, ganha um rasto fulguroso e cruza o céu noturno. Sara espanta-se de a ver e profere a oração. Está exausta, mas finalmente chegou!
Lá está ela parada em frente à pequena igrejinha de madeira. Podemos apreciá-la. Mulher pequena, magra, desfigurada pelo incansável amor na procura, mas de tão grande aura que parece um gigante! Não há luar, mas dela irradia a mais brilhante luz dourada jamais vista.
Do simplório templo esgueira-se também a luz, tremeluzente, convidativa. Ela entra, mas só depois de afagar um enorme arbusto de azevinho que ladeia a estreita escada.
Lá dentro não há ninguém. Perto do altar, em jeito despojado, mas bonito, um presépio. Não está acabado, alguém o arranja para a missa do galo. Ouvem-se passos e o baque de bastão que os ampara. Sara deixa-se ajoelhar junto desta deleitosa cena – o presépio — quer observar cada uma das estatuetas talhadas em madeira e toscamente pintadas, mas as lágrimas não a deixam, distorcem e confundem feições e cores. Sara sente uma mão na sua cabeça. Algo dentro de si brota para além das lágrimas, algo ganha força como um germinar. Volta-se e vê António. Não o António que a deixou há tantos anos, mas sim um homem maduro, tisnado…limpa os olhos e vê o que ele não pode ver. Os seus olhos são pálidos, de uma cor leitosa. António cegou…
Ela levanta-se e abraça-o, proferindo baixinho em emoção:
— António…António, meu filho! Já sei porque não voltaste para mim…
Mãe e filho unidos num abraço intemporal, de amor e luz, rodeados pelos ramos de azevinho, que iam enfeitar o presépio, espalhados pelo chão como ficara a saudade quando o filho partiu.

O tempo não tem memória. Pode curar e transformar, mas esquece e basta o sopro de novas vidas para que se perca o rasto poeirento das lembranças. Mas a natureza lembra, mesmo a mais ínfima lembrança, deixa-a a vogar no cosmos…a ligação entre mãe e filho é eterna, tem memória - a memória da natureza – pois é geradora de vida, é natividade!

 

Conto escrito no âmbito do desafio dos Contos de Natal por imsilva

 

 

Canção do Mar

12.12.22, Olga Cardoso Pinto

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Há no mar uma canção
Que me enche até à alma,
Deixa-me a simulada ilusão
De alegria, rejuvenescimento e calma

Quando o mar canta seduzindo
O espírito mais incauto e atormentado,
De bravas estórias vai urdindo
No ir além, num sonho embarcado

Canta mar o meu desejo
De ser gente assim feroz
Traz-me quem foi nesse ensejo,
Faz da minha a tua voz.

 

 

Foto: Praia do Norte - Nazaré

 

Lançamento do livro Contos de Natal

05.12.22, Olga Cardoso Pinto

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A sala da Biblioteca Municipal da Ericeira - Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva tornou-se pequena para tanta alegria, conversas e letras.

Mais uma vez, a acolhedora vila recebeu o "nascimento" do segundo livro desta Comunidade de bloggers dedicado aos Contos de Natal. Porém, este ano o encontro encheu-se de mais autores e com a presença bem disposta da nossa querida Alice Vieira, que também participou nesta edição.

Seguiu-se o almoço literário no afamado Restaurante Gabriel. Além da partilha da apetitosa refeição, onde não faltou a doçaria local, partilhou-se a paixão pela escrita, pela literatura e pela criatividade entre autores que não quiseram faltar ao evento.

A inovadora iniciativa de congregar em livro contos natalícios, está cada vez mais a ramificar-se, desabrochando pelo segundo ano nesta bonita partilha entre autores que se conheciam no mundo digital e agora extrapolada para o mundo real. Foi imensa a felicidade sentida e partilhada!

Agradeço, mais uma vez, à Biblioteca Municipal da Ericeira, em especial à Carla e à Cristina pela seu envolvimento e apoio, à Alice Vieira por ter tirado um bocadinho do seu tempo para nos acompanhar; ao Restaurante Gabriel que nos acolheu, proporcionando o prolongar do nosso convívio literário, e a todas e a todos amigos bloggers que abrilhantaram este sábado de dezembro:

Isabel, José da Xã, Isa, , Manuel, João, Maria, Ana, Cristina

e ao João-Afonso Machado pelo bonito prefácio. Aos que não puderam comparecer, o meu agradecimento pela participação e criatividade nestas lindas estórias que compõem o nosso livro!

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Um sentido obrigada à minha querida amiga Maria Manuel Reis por ter aceitado o convite e comparecer, partilhando-se e oferecendo o seu bonito livro.