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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

Santuário

31.01.23, Olga Cardoso Pinto

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Sem portas para abrir, o templo está exposto, descoberto, cheio de dom e de graça. Ali me confesso. Ali contemplo, inspirada por tudo o que meu espírito abraça.

Em recolhimento, agradeço, pelo sol que me banha, pela luz que me ilumina, pelos odores frescos que me acolhem, pela brisa que me agracia.

Os cânticos são belos, magistrais, embora de vozes não humanas, delicadamente afinadas, angelicamente naturais.

Deste banco absorta, em grata contemplação, esqueço-me das horas que me aguardam reclusa da civilização.

A luz vai mingando, já coada pelas altas divindades, sem pedestais nem incensos, erguem-se no madeiro de outras realidades.

Tenho de partir...pena minha. Sem benzedura ou genuflexão, deixo este santuário de alma mais leve, grata e feliz, de reforçada devoção.

 

Foto: Parque da Cidade - S. Pedro de Avioso - Maia 

 

 

Um bosque

26.01.23, Olga Cardoso Pinto

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"Ao entrarem no frondoso bosque, ficaram maravilhados com o exuberante efeito da luz e das sombras, parecia um mundo à parte, misterioso, até os sons eram diferentes. Encantaram-se, boquiabertos, com a delicadeza do vento nas folhas, os estalidos que provocava nos ramos, o cantar harmonioso dos pássaros, os cheiros perfumados que se dispersavam…o encanto foi tal que as crianças perderam a noção do tempo, das horas e de si mesmas. Sentiam uma felicidade indiscritível ao percorrerem aquela floresta que parecia não ter fim. Foram-se adentrando cada vez mais, levados pelo pardalito que não se cansava de cantar e esvoaçar à sua volta. Chegaram a uma formidável clareira iluminada pelo sol. Ali só se ouviam murmúrios. As árvores mais antigas curvavam-se, dando-lhes as boas-vindas, emitindo sons desconhecidos semelhantes a linguagem. Delas começaram a voar pequenos insetos de asas maravilhosas, translúcidas com os reflexos mais lindos alguma vez vistos. Luísa e Pedro estavam deslumbrados com tamanha beleza! Então, quando os insetos os envolveram poisando nas suas cabeças, rosto e mãos, sentiram desprender-se dos seus peitos, mesmo onde habita o coração, finos fios acetinados, semelhantes a teias de aranha, mas resistentes e volteantes como bordados."

 

Excerto do conto infantil "O Bosque Encantado" de Olga Cardoso Pinto

Boas leituras!

 

Homenagem a meu Pai

18.01.23, Olga Cardoso Pinto

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Coroada de casuarinas,

Batida p'la brisa amena,

Beijando a praia serena,

De ondas de espuma fina

Eis Luanda, a jovem morena.

 

Entre embondeiros dispersos

Onde verdejam palmeiras,

E se abraçam as piteiras,

Eu te canto estes versos

P'la voz das quitandeiras.

 

José Andrade Cardoso

(1928 - 2015)

Foto: Marginal de Luanda, nos anos 60

 

Em memória do meu querido Pai, angolano, nascido na cidade de Luanda. Partiu em 2015 levando as saudades da sua terra à qual nunca mais voltou. Ao meu mestre, ao poeta, ao compositor, ao escritor, ao pintor e ao Homem de muitos talentos, que celebraria hoje o seu aniversário.

Estes versos são de uma bela canção, tocada em guitarra clássica que compôs ainda jovem, com a vista sobre a baía de Luanda a inspirá-lo. Partilho aqui os seus versos em sua homenagem.

Parabéns Pai...

 

 

Entardecer

17.01.23, Olga Cardoso Pinto

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O que seriam dos nossos dias sem esta dança do tempo. Das manhãs frescas, de correrias ou languidez, para tardes ensolaradas ou ventosas, de horas mortas ou despertas, findadas em pores-do-sol doirados, baços ou nebulosos...

O pôr-do-sol do entardecer é deslumbrante, cativa-nos seja ele no mar ou, como este, num lugar onde a Natureza reina nos seus tons de inverno, onde a sua luz faz cintilar as pérolas da chuva e do orvalho que refrescam o caminho. Está tudo ali - a luz, os odores, as cores, os sons...para nos retemperar a alma ao entardecer.

 

 

A Árvore da Vida

11.01.23, Olga Cardoso Pinto

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Ela ergue-se no umbigo do mundo. Eleva-se esplendorosa em direção ao céus, passados, presentes e futuros. Do alto da sua existência contempla silenciosa o amanhecer das épocas até ao seu arrebol. Ela é a presença omnisciente, douta sabedoria de todos os tempos do mundo.
Senhora o que vês? Pergunto-lhe, consternado, ao ver as suas folhas caindo cobrindo o solo sagrado. Um leve restolhar embala-lhe os braços, desnudados e rugosos que se levantam ao céu anilado, esmaecido aqui e ali de nuvens brancas. Um bando de garças cruza o firmamento. Eu contemplo-as. De voz rouca, volto-lhe a perguntar. Ela nada responde, somente chora. Do corpo robusto, que se divide em entrançados que a vida lhos fez, que a sina lhe ditou em forma áspera mas quente, de cheiro seco perfumado pela madeira de sândalo, de luar e de mistério; brotam gotas. Não sei se estas gotas são de choro, suor ou de orvalho. Esta água purificada nas suas entranhas ancestrais, derramam-se no solo escuro e frio e correm como veredas por ele até se aninharem num covo mendinho. Daí a instantes crescem, como um milagre, retorcidos rebentos tenros de verde luminoso. O chão fica pontilhado deles.

A brisa mansa sopra despenteando-me o cabelo. Continua em remoinhos invisíveis e volteia pelos rebentos que estremecem de emoção. Ao serem tocados em jeito mimoso e atrevido, soltam minúsculos esporos luminosos que se espalham pela Terra, levados pelo Mistral, Siroco e Foehn, os irmãos ventos que correm este imenso planeta. Inspiro e transporto-me com eles, deixo a Senhora, a mãe, a sagrada árvore da vida detentora da criação, da fecundidade e da imortalidade deste mundo. Ficará ali eternamente, pelas épocas que se retorcem de existências, aguardando que um dia a sabedoria dos Homens retorne para si…

 

Para ouvir enquanto lê: "There Was a Time" de Scott Buckly

 

 

Amanhecer

09.01.23, Olga Cardoso Pinto

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A maravilha do amanhecer! O magnífico anúncio de um novo dia que cada nascer do sol traz. Só as palavras "nascer do sol" já são um epíteto para iniciar o novo ciclo de horas. 

Poder apreciar esta magnificência do amanhecer de inverno, em que patina da neblina fica alcandorada sobre a Natureza, como inspirando a suspensão do tempo e das horas que nos aguardam, é uma bênção! 

Quanta beleza nesta singular experiência que a Natureza nos oferece, fico-lhe grata pela oportunidade de presenciar mais este milagre da vida inspirando o iniciar de um novo dia, inspirando à esperança do recomeço...

Bom dia!

 

Uma estória ao final do dia

06.01.23, Olga Cardoso Pinto

Chamem a criançada aí em casa! O Ministério das Criaturas Fantásticas quer conhecer-vos. Estas criaturas gostariam de fazer parte das vossas vidas, serem conhecidas, lidas e acarinhadas para que o mundo da fantasia perdure...

 

 

Juntem os miúdos e com eles leiam uma estória. Sejam inspiradores, tal como a Mariana, a fadinha aprendiza, que sussurra ao Samuel lindos sonhos.