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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

A doce Fada Azul

29.11.23, Olga Cardoso Pinto

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A pequena Fada Azul

Dança e rodopia sem se cansar

Numa alegria contagiante ao sol a brincar

 

A pequena e doce musa

Volta e meia vem-me visitar 

Inspirando-me sobre ela escrever e pintar

 

A doce Fada Azul

Mima-me com a sua candura

É a minha ninfa, musa e doçura

 

Retrato ilustrado da Benedita

 

Ver ilustração no Portefólio aqui

 

Para ouvir enquanto lê: Deliver Me - David Arkenstone

 

 

 

Janela namoradeira

27.11.23, Olga Cardoso Pinto

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Senta-te comigo à janela...

Num belo dia ensolarado,

Ou na noite serena de céu estrelado.

 

Senta-te juntinho a mim

Como a namorar,

Deixemo-nos ficar assim

O jardim contemplar...

 

Olha...lá longe a serra, como por nós a suspirar

E aqui perto a vinha, as laranjas e o trigo ao sol a doirar

Depois as camélias, as rosas e os cravos, todos a medrar...

 

Diz-me de ti, aqui ambos sentados...

Faz-me sorrir com o teu humor,

Conta-me segredos, verdadeiros ou inventados,

Deixa-me corar das juras de amor...

 

Sentados à janela,

Agora apertadinhos nas namoradeiras!

A vida é feliz, ligeira e bela

Com os nossos tesouros sempre em brincadeiras!

 

Dizemos adeus, bom dia e como está,

Da janela vemos a aldeia e tudo o que ali há.

Enfeitamos os dias, abrimo-la ao vento.

Crescem as vidas tal como o fermento.

 

Sentemo-nos à janela.

Já ambos cansados,

Vemos através dela 

Os anos passados...

 

A vida lá fora rola sem cessar,

Mas dentro de mim roi a saudade!

Aqui fico horas, na janela a recordar

Os anos do nosso amor, para toda a eternidade.

 

 

Foto: uma das belas janelas da Pousada de Amares, antigo Mosteiro de Santa Maria de Bouro

 

Segredos

20.11.23, Olga Cardoso Pinto

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"Glória ia sendo lentamente seduzida pela vida singela deste mundo rural. Durante o dia, aos poucos, ia esquecendo as lembranças que à noite teimava em guardar e a revisitar vezes sem conta, com o intuito de não as olvidar, arreliava-se até por esquecer um ou outro pormenor da antiga casa, da antiga rua e da escola. Contudo, nunca saíra das redondezas sozinha. Naquela manhã saiu decidida, depois de avisar o pai que ia num pequeno passeio. Não o confessava, mas o irmão era o causador de toda esta valentia inusitada. Decidira, também, investigar todo aquele espaço sem casas, sem povo, cheio só de campos, floresta e serras. Sentia uma pontada de vergonha por ter dez anos e ser tão insegura e nada valente como Tobias, um pirralho de cinco anos que já percorrera aquele infinito de espaço e liberdade. Tinha medo, receio do que pudesse acontecer-lhe. «Posso cair duma fraga, partir uma perna e ficar por ali e ser comida pelos lobos. E se aparece um Olharapo? Ou ainda a Maria Gancha?». Depois destes pensamentos, atirou com os caracóis arruivados para as costas, como um ato de brava segurança, tentando afastar o mau agoiro.
As histórias da tia Rosário andavam a mexer-lhe com as ideias. Era tudo novo, desconhecido, misterioso por ali. Até os sonhos eram invadidos por estes seres desconhecidos, habitantes de lendas e histórias contadas por todos na aldeia, após a ceia, desfiadas à lareira. Certa noite, acordara com um ruído estranho no quarto, primeiro junto ao guarda-fatos e depois teve a sensação de que algo se escapuliu para debaixo da cama, deixando cair alguma coisa que retiniu. De manhã, exausta por não ter conseguido adormecer, tendo passado a noite hirta de medo por baixo da coberta, espreitou temerosa e nada viu, só pó e marcas de arranhões na madeira do soalho. Andou o resto da manhã a matutar até que perguntou ao pai se ali haveria ratos. O pai respondera-lhe que não, dentro de casa não havia, mas a tia dissera-lhe algo que a amedrontou «Se não são ratos, cuidado! Pode ser um Tardo!» e piscou-lhe o olho zombeteira. Existiriam semelhantes criaturas?
Quando saía para o campo com os tios, sentia-se libertar daquele peso miudinho que a ruminava desde a morte da mãe, preenchia-se o vazio que sentia no peito.

O caminho era feito adentrando-se numa pequena floresta, depois atravessavam um rio, cuja ponte não se deveria olhar para trás, daqui seguiam por uma clareira estranhamente sempre verdejante e de onde se ouvia o correr alegre dos regatos. Pouco depois, retiravam-se do caminho desgastado pelo uso e entravam na terra lavrada, pululada de produtos hortícolas e mais distante as cortes onde pernoitavam as cabras e as ovelhas."

 

 

Excerto do conto O Segredo da Velha Casa, por Olga Cardoso Pinto

Conto cuja narrativa decorre nos anos após a 1ª Guerra Mundial, em Portugal. Conta a história de uma família que se refugia no campo, no Minho, em alternativa à vida citadina, para fugir da pandemia da gripe espanhola, da crise económica e social. Encontrar o equilíbrio de espírito e reconstruir os laços familiares, são os objetivos de um pai viúvo com duas crianças pequenas. Estas são arrebatadas pela vida singular da aldeia, e num mistério que habita a decrépita habitação. Será a imaginação infantil ou uma realidade alternativa que espreita, aguardando pela inocência e curiosidade dos dois irmãos?

Foto: vista para a Casa da Pequenina, aldeia A Pequenina, Vila Verde.

 

Para ouvir, enquanto lê: The Magic Fairies - David Arkenstone

 

 

 

Mabon

16.11.23, Olga Cardoso Pinto

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O Outono é uma Mulher que se veste de tons ocres, laranjas, fulvos intensos. Adorna-se de belas joias naturais e desfila elegantemente, contagiando o mundo pelos caminhos que percorre. Recebe no colo e nas mãos as aves persistentes que teimam em ficar. Perfuma, com laivos de magia, cada recanto das cidades, vilas e aldeias; um perfume que só ela sabe destilar, de coração quente com pitadas de noz, pinha e musgo, as notas florais vêm das flores dos citrinos e para ambientar, um toque de azevinho. Depois queda-se, de pensamento longe, deixa-se embalar pelo vento e resguarda-se da chuva, envolvendo-se na neblina até ficar letárgica, em suspensão. A sua respiração é quase um sopro. Tudo é calma, num intervalo em que o tempo se suspende, a criação abranda num repouso... Shhhh, Mabon chegou...

 

Ilustração: Mabon, o equinócio de outono.

Ver ilustração no Portefólio

 

Inspirações

14.11.23, Olga Cardoso Pinto

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"Ela colheu a pequena flor, de cor imperial, pondo-a nos cabelos, e bailou pelo caminho até à clareira iluminada pelo sol envergonhado por tanta beleza. Quando rodopiava, os seus olhos esmeralda encontravam os meus, e beijavámo-nos neste jeito inocente, como osculando as nossas almas... Os cabelos lustrosos, balouçavam no ar, parecendo um manto de folhas outonais. Eu amando-a ao vê-la assim alegre e bela como o açafrão bravo que colhera e enfeitava agora a orelha direita, contrastando com o rosto claro, pintalgado de marotas sardas, emoldurado pelo cabelo fulvo. A melodia subia no ar. Eu entusiasmado de a ver, dedilhava a rabeca com mais fervor. A clareira estava pejada de bailadores e tocadores de flautas, adufes, vielas, gaitas galegas, rabecas chuleiras... Brígida bailava, folgazeira, sem se cansar, a boca rosada sempre sorrindo e eu, pobre de mim, ansiava por abraçá-la, por sentir o seu perfume, o toque da sua pequena mão e o cheiro dos cabelos... sorte tinha aquela flor por poder enfeitar o que já de si era belo..."

 

Excerto do romance O Abraço do Freixo, por Olga Cardoso Pinto

Podem ler mais excertos deste romance  neste link,   aqui ,  aqui e mais ainda

aqui também,  e aqui

 

Para ouvir, enquanto lê: Misty Morning - David Arkenstone

 

 

Nós, Humanos

08.11.23, Olga Cardoso Pinto

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🍃🍂

Todo o corpo humano é um mundo natural...

Os nossos pulmões assemelham-se a árvores, o nosso cérebro parece-se com zonas rochosas desgastadas pelas águas, as nossas impressões digitais comparam-se com os anéis das árvores que registam a sua idade no interior do seu tronco, as palmas das nossas mãos colocadas ao lado de folhas de árvores, são semelhantes nos veios que as percorrem. O nosso sistema circulatório é quase como a imensidão de rios que correm para o mar. O simbolismo da Árvore da Vida, com os seus imensos galhos elevados para o céu e as suas prolíferas raízes que se estendem no subsolo, têm uma bela similaridade com a placenta que permite o desenvolvimento do bebé no ventre materno… e muito haveria para referir e comparar.
Para terminar, em jeito de reflexão: quanto há em nós de Natureza? Teremos dentro de nós um ecossistema igual aos que existem no planeta Terra? Estaremos todos ligados por um entrançado de raízes invisíveis?

 

 

Riquezas

06.11.23, Olga Cardoso Pinto

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Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura...

 

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro - Fernando Pessoa

 

 

Leituras: Microconto

O lenço dos Namorados

03.11.23, Olga Cardoso Pinto

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O ritmado da mão e da agulha no passajar, hipnotizava-a, tornava-lhe a mente dormente, aturdida para os ruídos exteriores, do cacarejar das galinhas e do zurrar dos burros. O bordado ia nascendo daquelas mãos pequenas de dedos curtos e arredondados, como um parto sem dor, todo ele florido. No aconchego do alvo linho, a jovem semeava belas flores coloridas. Torneadas filigranas de fio e seda, enroscavam-se na bordadura daquele lenço que ganhava sentimento e alma.
Ana bordava afincadamente. A mente vogava num mundo só seu e dele, do seu amor que a iria deixar em carne viva de saudade, pois iria partir para longe, cruzar o mar infindo, o oceano como o boticário lho dissera; seria sim, um oceano de lágrimas saudosas pelo seu António. Tê-lo-ia em espírito, nas lembranças, no aconchego caloroso de uma recordação, de um beijo dado em surdina, no toque quente da sua mão. As lágrimas, como grossas pérolas que nunca usara, caíam-lhe no pano esquecido no regaço. Suspirou e voltou ao labor do bordado. As cores vivas nada condiziam com o seu sentir...pobre moça, sentir-se-ia como viúva se não fossem as cartas que iriam trocar.
Voltou afincadamente ao bordado, sabendo que necessitava de bons pensamentos para atrair bons presságios, não queria que o destino se amarrasse a maus augúrios. "Livrai-o, Senhor, de mau infortúnio. Que caia sobre ele as Vossas graças. Protegei-o. Amén!". Repetia várias vezes até voltar a cair na antecipação da partida.
Como há muitos séculos, Ana bordava para o amado o lenço que ele traria junto ao coração. Seria como uma eterna lembrança, um fio onde ambos os corações estariam atados pelas juras de amor. Ao bordar o lenço, bordava o destino em belos pontos e vivas cores para que o mal não atentasse, para que a sua vida lá longe, tão distante com tanto mar de permeio, não se perdesse nem esquecesse a sua amada.
António partiria em breve para o Brasil, levando um pequeno saco onde arrumaria a sua jovem vida, de poucos pertences e ralas riquezas. Ia nesse oceano, como uma estrada, no bojo do enorme navio fazer-se à vida, tentar fortuna e um dia teria Ana ao seu lado. Ambos formariam uma família, cultivariam a sua horta e o seu jardim por onde correriam tenras crianças de risos felizes e bochechas coradas.
De mão estendida, temerosamente, Ana ofertava o mais seu que lhe podia dar - o lenço por si bordado. Delicadamente lavado, engomado e perfumado de alfazema. Antes de lho passar dobrado para as mãos calejadas, beijou o nome que enfeitava o centro do pequeno quadrado de linho. As letras delineadas, feitas com ponto atrás, foram amorosamente orladas pelas flores e folhas em ponto cheio e corrente. António também o beijou, ficando com os olhos marejados ao ler naquele pedaço de tecido, naquele pedaço de amor:
"António,
Que o bordado do nosso amor te traga de volta para mim
da tua Ana"
Abraçaram-se longamente, sem se quererem separar, ficariam assim até ao fim dos tempos, mas o navio roncou, sobressaltando-os.
O lenço, guardara-o António junto à pele. Seria ele o guardador das suas lágrimas de saudade, de tristeza e alegrias; seria ele que encerraria o cheiro de Ana, o toque suave e doce, a cor da sua alegria, a alvura da sua alma.
O lenço, guardara-o António junto à pele, assim o faria a Ana quando voltasse. Só Deus o saberia quando...

 

Para ouvir enquanto lê:

Enchanted: David Michael Tardy

 

 

 

Outonando por...

Lagoas de Bertiandos e S. Pedro d'Arcos

02.11.23, Olga Cardoso Pinto

Em pleno dia de outono agreste, as nuvens ameaçavam cair sobre nós, trazendo um quase dilúvio para a nossa caminhada. Um sol envergonhado até ia espreitando, tentando que o céu se descobrisse de azul... Lá fomos rompendo pela natureza, quase intocável, sempre banhada pela água que faz das Lagoas de Bertiandos e S. Pedro d'Arcos uma zona muito especial. Declarada zona húmida de importância internacional, abrange várias freguesias do concelho de Ponte de Lima, é uma zona rural onde o verde da natureza e a esmeralda das águas do rio Estorãos se unem à beleza rara e protegida das lagoas.

 

 

A união dos passadiços sobre os terrenos alagados, a vegetação ripícola, o cantar das aves, a vida que pulula nas lagoas, fazem deste lugar um retiro idílico, e até mesmo fantástico, para uma caminhada de outono.
O local é cinematográfico, inspirador para escrever e pintar. Surgem-me na mente cenas fantásticas de criaturas etéreas de mundos irreais, de fábulas onde os animais são senhores e reis...a imaginação até me leva a acreditar que as aves falam de nós enquanto esvoaçam pelos altos ramos dos amieiros, freixos e carvalhos.
As Lagoas de Bertiandos e S. Pedro d'Arcos, são área protegida que deve contar com o nosso carinho, interesse e orgulho. Com 350 hectares, alberga em si habitats raros de elevada biodiversidade, fazendo dela um marco nacional para a educação ambiental e preservação da natureza.

 

 

Para todos nós, além da responsabilidade da sua manutenção e existência para que os nossos filhos e netos a possam desfrutar, é um lugar de contemplação e felicidade, longe do bulício citadino, da poluição e canseiras. Está ali pronto para o apreciarmos, sem custos de entrada ou utilização, apenas pede para ser respeitado e amado pela sua beleza e riqueza natural.

Fica o convite para conhecer ou revisitar.

Para saber mais pode consultar o site