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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

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Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

A fonte que não o é

02.07.20, Olga Cardoso Pinto

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A Fonte de Águas Santas que deu o nome à freguesia, na cidade da Maia.

Esta fonte milenar encontra-se esquecida nas traseiras do casario que brotou, ao longo dos tempos, em frente à Igreja de Nossa Senhora do Ó. A sua origem perdeu-se na névoa dos séculos, permanecendo, no entanto, a igreja de influências românicas e a lenda que a tornou conhecida. Porém, a atual fonte já nada tem da anterior nascente que foi uma referência na localidade, tanto para os habitantes como para os peregrinos que por ali passavam rumo a Santiago de Compostela. 

A construção da Igreja de Águas Santas ou de Nossa Senhora do Ó, no século XII, tem origem numa edificação antiquíssima de origem pagã, sobrevivendo ainda na parte sul o remanescente do antigo convento erigido em 974. A fonte já lá existia pois era a forma de aceder à nascente de água límpida para o antigo mosteiro.

O Dr. Joaquim Moutinho dos Santos, ilustre médico, escritor e humanista maiato, grande defensor da história da sua Maia, referiu nos seus escritos Impressões históricas, geograficas e outras variedades da freguezia de  Aguas Santas de 1871e é transcrito por António Arroio no seu livro «Singularidades da Minha Terra» em 1897, sobre o que fora esta fonte:

«fonte de abobada oval em toda a sua amplitude, hermeticamente fechada, dando apenas entrada aos aljôfares de puríssima água que borbulhava do fundo, a qual estava situada no sopé do Mosteiro e, poucos anos antes, havia» sido deslocada do seu leito e transformada em uma cisterna lodosa e despojada de suas águas perennes, a ponto de seccar em tempos áridos, «destruição sacrilega esta que é o assassinato mais estúpido que encontramos na meditação da nossa historia e não podemos por elle deixar de responsabilisar a memória do parocho que então presidiu a tal offensa!»

Toda a região é rica em história. Ali perto existem as ruínas de um antigo castelo, embora não comprovado, terá sido um dos bastiões de Gonçalo Mendes da Maia. O rio Leça corre ligeiro num sinuoso caminho bordejado pelos esqueletos decrépitos de antigos moinhos. Há tanto para ver e conhecer...

As fotos da fonte datam de finais do ano passado, recentemente fui lá e encontra-se quase coberta de vegetação, embora não sendo a original pois muito foi alterada para servir a rega dos campos, dá dó vê-la ali esquecida, remetida para uma insignificância nada merecida.

Pesa-me o esquecimento e algum abandono das memórias desta terra magnífica, enfeitada por campos e solo fértil, de nascentes que correm para ribeirões onde já existiram imensos peixes que enriqueciam as mesas dos maiatos. A lavoura era a subsistência das gentes e também o vinho, o linho e os tamancos. A ruralidade ainda hoje é evidente, mas a história do berço do glorioso Gonçalo está apagado, indelével na paisagem e em monumentos que se vão aninhando nas ervas, nos escombros do esquecimento.

 

 

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