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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

Conto: A Primavera num Arco-Íris

3ª parte

14.09.20, Olga Cardoso Pinto

a primavera num arco iris_OCP (3).jpg

Termino hoje a partilha do meu conto. 

Se perderam a 1ªparte podem ler aqui e a 2ª parte aqui. Espero que seja uma boa leitura.

Bjs

 

 

Naquela manhã acordei todos muito cedo, o sol ainda se ensaiava antecipando a sua presença no arrebol que já tingia o céu a levante. Todos perguntavam aonde iam, o que íamos fazer, eu só respondia no meio de um sorriso «Naturando!»
De mochilas às costas, roupas e calçado confortáveis, sem esquecer os bonés, lá fomos.
— E a máscara e o gel, mamã? — perguntou o filhote mais velho.
— Para onde vais não precisas disso! — respondi-lhe atirando-lhe com um piscar de olho.

A caminhada seguia entusiasmada, num amanhecer diferente, sem amarras, nem máscara nem gel, somente os sorrisos cobriam as bocas deixando espaço para as palavras florirem em assombros e satisfação. Quando chegamos ao término do caminho e desviamos para entrar na floresta, os três estancaram curiosos - ali o ar, a paisagem, o sentir pareciam diferentes! Comentavam entre eles e olhando para mim, agora revelava-se o segredo das minhas prolongadas ausências.
— Vamos?! — incentivei tomando a dianteira.
Os passos restolhavam nas folhas secas, nos despojos vegetais que iriam ser húmus, era bom ouvir este som seco. Depois os ouvidos abriam-se na melodia do cantar das aves, nos trinados dos rouxinóis e nos estalidos cadenciados dos rabirruivos. O vento soprava de manso a copa das árvores, secando o suor que já escorria nas frontes, refrescando por momentos o corpo e o espírito. Ao longe ouvia-se o correr da água, numa sonoridade encantada de frescura e prazer líquido. Os miúdos pousaram as mochilas e deambulavam fazendo o reconhecimento do misterioso lugar. O freixo imponente mirava, lá do alto da sua presença e sabedoria. O marido agarrou-me pela cintura e confidenciou-me ao ouvido:
— Então era para aqui, e para estares com este freixo, que tu nos deixavas!
— Ciúmes? —perguntei-lhe. — Olha que ele é muito velho, no entanto é calado…
Ele sorriu, brindando-me de seguida com um longo e terno beijo que, ainda hoje, saboreio na saudade da sua presença.
Sentamo-nos na sombra e no aconchego da árvore anciã. Abriram-se as bocas de pasmo quando do tronco retirei o meu livro. Li-lhes os meus contos, as minhas histórias e efabulações. Mostrei-lhes os desenhos que ganhavam vida através das palavras contadas, criando, como por magia, seres, vidas, mundos inverosímeis.
Depois tomamos um banho retemperador nas límpidas águas do ribeiro, partilhando as delícias da frescura com salamandras e tira-olhos. Quando todos já se sentiam refrescados e enxutos, sentamo-nos à volta da toalha, cuidadosamente estendida sob o freixo. Retirei do cesto de piquenique o almoço, distribuímos sobre a toalha o repasto que seria a nossa refeição, numa partilha tão íntima naquele precioso local. As sandwiches de atum e pimento foram devoradas num ápice guloso. Seguidamente marcharam as uvas, ainda frescas, que explodiam de sumo na boca. Os risos e as patetices entremeavam a degustação. O sumo de laranja desaparecia da garrafa acompanhando o que restava das batatas fritas. Quando abri o recipiente onde guardara o bolo de chocolate até os olhos sorriram, os dos miúdos e os nossos! Naquele bolo estava a receita da felicidade, de um dia vivido intensamente, na ingenuidade da infância e do saber amar incondicional de um pai e de uma mãe. Sim, importava o que comíamos, valiam muito as nossas presenças, os nossos sorrisos, as nossas conversas, as nossas revelações. Sentíamo-nos felizes! E lá do alto estava o freixo abrilhantado pelos reflexos finamente doirados do sol.
Os silvos das andorinhas e o cantar serrilhado dos grilos anunciaram o entardecer. «Já!?» dissemos quase em uníssono. O dia passara sem darmos por isso, numa alegre renovação, num distanciamento da realidade. Dirão alguns que isto só fará pior, pois a realidade está aí, não desaparece, temos é de a enfrentar com sabedoria e resiliência. E eu respondo – pois então? Não é isso que procuramos, e que encontramos neste dia? Perguntem aos meus filhos se não foi um dia especial! Ainda hoje vivem em memórias este dia extraordinário, ficou gravado para sempre nas suas almas este dia tão simples e ao mesmo tempo tão fantástico, em comunhão com a natureza e com os progenitores que com tanto amor os trouxeram ao mundo. A vida faz-se de momentos de felicidade para podermos encontrar forças para continuarmos nesta labuta. E estes momentos podem ser tão singelos como o nosso dia na floresta. Claro que voltamos lá inúmeras vezes, mas a primeira foi verdadeiramente mágica! Ficou na memória, impregnou a alma dos meus queridos filhos e ficou imortalizado nas fotografias que ainda hoje vivem dispersas pelos móveis das suas casas.

Depois deste dia as semanas tornaram-se mais suportáveis. Eu continuava com as minhas caminhadas, sendo acompanhada pelos filhos e marido dois dias em cada semana. Os garotos viviam para os dias no desfrutar da floresta. Foram contagiados pela natureza que ali residia ainda prístina, intocada. Diziam com grande normalidade: «Vamos naturando?». O meu livro ganhava cada vez mais textos e ilustrações, até tive necessidade de lhe colar mais páginas. O manuscrito rebentava de escrita, de ideias, de personagens e de vida. Quando regressava a casa deixava-o entregue ao meu amigo freixo, tal como um guardião para o meu tesouro.

Os meses passaram num verão quente e por mim. Eu não estive verdadeiramente presente, pois perdi a noção dos dias, do tempo que me levou para longe, para outros lugares. Sonhara? Enlouquecera? Recordava numa névoa indefinida que tudo principiara numa noite agitada. Sentia-me febril, fraca…teria apanhado demasiado sol na praia?
Apercebi-me, mais tarde, que estava naquele local, onde sentia o meu corpo preso, que tudo era calmo, fresco e luminoso, ouvia somente aquele incomodativo som desconhecido que matraqueava os meus ouvidos. Sentia que me cuidavam com carinho, que me cantavam canções conhecidas, que me penteavam os cabelos. Via reflexos fulgurosos. Seriam fadas? Enlouquecera, só podia. Ouvia que diziam o meu nome…Depois de algum tempo fui conhecendo as vozes e um pouco das suas almas, tão prestativos e carinhosos. Sentia muito afeto por uma mulher que me envolvia num cantarolar como se fosse uma oração. Pela voz seria jovem, estoica e confiante, mas por vezes sentia-lhe tremer a voz ou por cansaço do permanente cuidar ou pela dor que a invadia…eu não compreendia o porquê. Agradeço a todos o amoroso cuidar que agora sei ter sido essencial numa solidão que eu desconhecia. De vez em quando voltava para visitar os meus filhos, consolá-los…trazer-lhes um pouco de conforto nas noites de insónias ou de sonos mal sonhados. Sussurrei ao ouvido do marido, ele parecia ouvir-me e sossegava, embalado pelo meu desfiar de contos nascidos da minha mão. Das suas mentes retirava-lhes fios de lembranças, trazia-as para a frente, para que nunca esquecessem o que nos ligava nesta união de sangue e amor. Depois voltava a partir para a floresta onde sempre pertenci, para o velho freixo acolhedor. Sentia o seu odor a madeira, a seiva e a musgo. Tocava as suas raízes tão profundas como o correr dos tempos. E à noite? Quando a lua cheia toma por empréstimo o brilho do sol? É uma cena encantadora, eles teriam de ver. Ver como a senhora da noite e a escuridão enfeitam cada recanto da imensa floresta. Despertam os animais para mais um dia ao contrário, saem dos esconderijos as traças no seu voltear enfeitiçador, os morcegos que as perseguem em volteados que parecem danças, os pirilampos que enfeitam as clareiras como lucernas antigas. As corujas atentas empoleiradas nos ramos mais altos. Há todo um frenesim que nos escapa porque estamos nas nossas casas. Havia tanto para descrever. Porém, para meu descontentamento era puxada para voltar ao local fresco, cuidada pelas fadas. Relutante lá ia, sem vontade e contrariada. Porque não me deixam ficar ali? Ou ir para casa? Tinha tanto para contar aos miúdos. Contar-lhes como é maravilhoso ouvir a chuva, o som delicado dos pingos ao caírem nas diferentes superfícies, do desabrochar que ela provoca na natureza, nas pequenas e insignificantes plantas que germinam timidamente e que com ela ganham força crescendo ligeiras.
Um dia, sem tempo, sem hora, sem luar, somente luz, deixei-me ir contrariando quem e o que me amarrava ao lugar fresco, calmo e luminoso, somente interrompido pelo som cadenciado que matraqueava os meus ouvidos.


Conto-te os meus contos, as minhas histórias, as minhas memórias, tal como contei aos meus filhos, espero que eles os contem também aos seus filhos. São registos de uma vivência em tempos de pandemia, de tempos que nos obrigaram a mudar, a refletir e reformular a nossa forma de viver neste planeta. São histórias onde a natureza volta a ter um lugar de respeito e de importância, voltarmos a viver com ela, como parte dela, não acima nem abaixo, mas num fluir constante nesta roda da vida. Cada um encontra forma de sobreviver ao caos, ao medo, aos desafios que a vida nos faz. Eu e a minha família encontramos nas caminhadas pela natureza, pela floresta, a forma de nos fortalecer para uma nova vida que nos foi imposta pelo vírus.
Hoje eles voltaram à floresta, homens feitos e felizes e pelas mãos trazem o futuro, a dádiva da felicidade, trazem as suas crianças, reconheço as semelhanças! Agito-me de alegria, com a ajuda do vento que sopra sobre nós. O marido vem com eles, saltou-me o coração de contentamento! Vieram ver-me!
O silêncio fez-se, tal como uma pausa, um intervalo no fluir da vida. O meu filho mais velho retirou do tronco do nosso freixo o meu livro, senti-lhe a emoção a aflorar-lhe a bela voz, o marido deu o braço ao mais novo, as crianças sentaram-se no chão, cientes do momento, então ele leu as minhas palavras escritas há tantos anos:
«Renovo-me ao caminhar em plena Natureza, emergir nos seus odores, cores e sensações.
No silêncio das palavras e sob o burburinho das aves, do vento na folhagem e no estalar dos passos pelo caminho, eu me entrego, descubro novos sentimentos, quiçá adormecidos.
Deixo-me envolver por esses fios que nos unem, num eterno abraço mudo onde só bate um coração.
Os sons naturais e melodiosos, os cheiros a terra e vegetação, as cores e luzes deslumbrantes trazem-me a serenidade e a inspiração.
A Natureza dá-nos tudo e pouco reclama para si, apenas pede a nossa harmonia para com ela, o nosso respeito, carinho e aceitarmos que estamos todos unidos por um bordado invisível, no qual cada um de nós orna numa cor e num ponto diferente!
Encontram-me sob o freixo, aqui eu me inspiro…»

 

FIM


***


Este conto é dedicado a todos aqueles que cuidaram de nós, apesar do risco, desafiaram o contágio desta pandemia. Graças ao seu trabalho, dedicação e altruísmo: nos cuidados de saúde, no fornecimento de bens essenciais, na proteção e segurança, na manutenção de equipamentos e organizações, na disponibilização de todas as formas de cultura e arte, para que todos nós, estando em confinamento, pudéssemos ficar resguardados em nossas casas esperando voltar em breve às nossas vidas, às nossas rotinas, ao que mais gostamos de fazer, ao nosso viver e desfrutar da segurança, do equilíbrio e da liberdade também para ir «Naturando» em todas as Primaveras num arco-íris.
Obrigada!

Dedico, num abraço em jeito de escrita, a todos que foram infetados e conseguiram vencer a covid-19.
Os meus sentidos pêsames e respeito às famílias que perderam os seus entes queridos, vitimados por esta terrível doença.
Em memória daqueles que partiram em solidão, para eles dedico esta despedida, também ela sem voz, mas em frases escritas com sentimento e carinho.

 

Maio de 2020

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