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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

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Contos de Natal 2022

Um ramo de azevinho

13.12.22, Olga Cardoso Pinto

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Vou contar-vos uma estória sem tempo nem lugar. Perdeu-se no novelo dos séculos o pormenor que fazia dela uma estória pessoal. O tempo pode tudo e não pode nada. Pode curar e transformar, mas esquece e basta o sopro de novas vidas para que se perca o rasto poeirento das lembranças. Mas a natureza lembra, mesmo a mais ínfima lembrança deixa-a a vogar no cosmos…

Tudo começou numa manhã de primavera.

Estamos dentro de uma casa, antiga, arrumada. O sol entra pela janela da fachada frontal. Os raios brincam no soalho de madeira, num jogo de esconde-esconde com as sombras e as partículas que cintilam flutuando no ar.
De costas para nós, uma mulher de meia-idade apoia-se na ombreira da porta. O cabelo já com algumas cãs que lhe enfeitam as madeixas doiradas, está preso displicentemente num carrapito. As suas vestes são longas, denotam os anos vividos e remendados pelas sedosas mãos pequenas. Ela acena pesadamente. A luz do exterior, daquele sol que entra no conforto caseiro, não nos deixa ver a quem acena. Alguém que parte? Alguém que chega?
Aproximemo-nos. Agora quase de ombro colado ao dela, vemo-lo! É um jovem que também acena. O rosto triste contorcido num esgar, num sorriso forçado para a mulher que o desprende de si, num cortar de ligações feito cordão umbilical que perdura. Vai fardado, transformado em valente guerreiro, revelado por uma arma a bandoleiro e o cinturão que lhe cinge a cintura, ajeitam-lhe o destino.
Ela traz nas alvas mãos um lenço bordado, certamente por si para o enxoval. Junto ao fino rendado do linho as iniciais S e M, devotamente bordadas e rematadas por diminutas e cândidas flores. Com o pequeno lenço acena e quando ele lhe atira um beijo e não resiste volta atrás para a beijar, ela enxuga as lágrimas, essas pérolas que tristemente nascem dos olhos cerúleos quase céu, quase mar, quase destino deste filho que parte.
O abraço com que se prendem, com que desenlaçam os seus destinos, sabe-lhes a breve e a dor funda como uma facada.
— Adeus, mãe… — desprende-se ele daqueles braços-ninho, contendo os soluços quase infantis e de olhos marejados de água.
A mãe, de jeito suave, guarda-lhe dentro da casaca, bem juntinho ao coração, o pequeno lenço de linho. Colhe um mendinho ramo do azevinheiro e prende-o à abotoadeira. Dá-lhe um beijo na face imberbe e sussurra-lhe:
— Deus te guarde, filho meu! Vai…e que o teu anjo da guarde te traga de volta para mim…
Afastemo-nos para lhes dar privacidade, embora tentados a ficar pelo perfume a alfazema que se evola daquele belo lenço!
No canteiro, junto à frondosa janela, desabrocharam as graciosas flores brancas do azevinho, como querendo testemunhar a triste partida, guardando para elas a memória de uma primavera triste onde os pássaros cantariam por obrigação, o sol brilharia envergonhado e todo o esplendor primaveril ficaria embaçado pela mágoa desta mãe.

As estações foram rolando. O ano foi passando num desfiar atormentado. A mãe nada sabia do filho – se chegara, qual o destino? Ferido, onde estava? Morto – Vivo? Morria ela pela ausência de notícias, pela solidão a que se entregara. Da sua bela boca, de lábios finos e torneados, só as orações se assomavam. Naquelas pequenas mãos talhadas para o delicado labor do bordado, só o rosário as afagava num desfiar contínuo e persistente.
“Morto não estás…sinto-o no meu peito, no meu espírito…, mas onde estás?” — repetia constantemente. Saber de mãe é forte e douto, pois trouxe dentro de si o ser ao qual a sua alma está costurada numa fina e resistente filigrana do mais puro ouro. Se algum destes finos fios for puxado, mãe e filho sentem como picados pela agulha que os costurou.

Hoje ela está dormitando. Ficou assim entregue ao remanso da tarde, sentada no banco-arca que a acolheu para bordar. Reparem como é doce o seu rosto. Ela sonha, com certeza, pois sorri e os lábios balbuciam algo impercetível…será com o filho que ela sonha? Dizem que os anjos nos falam quando sonhamos e sorrimos.
O silêncio impera na casa. É outono. Um outono ameno que amadurece as abóboras, as romãs, os dióspiros, as tangerinas…o quintal está repleto de aromas e cores. As aves tentadas com os profícuos alimentos estão inquietas, esvoaçam e volteiam perto das árvores. Mas cá dentro, na acolhedora cozinha, nem mosca nem moscardo se ouvem. Demoremo-nos a apreciar o antigo escaparate que ainda se empoleira autoritariamente na parede. Moram lado a lado as canecas para a cevada da mãe e do filho. Há outra, mas nota-se que o uso a esqueceu, embora limpa, continua imóvel desde alguns anos, sem o préstimo que o proprietário lhe dava. Seria do pai do rapaz? Que é feito deste pai cujo filho se lhe deve assemelhar? Tristes famílias amputadas de pais ou mães e também de filhos que partem sem volta, ou esquecidos de retornar…
— Sara…Sara… — alguém sussurra.
— Sim!? — acorda a mulher, soerguendo-se e olhando em volta procurando quem a chama. — Devo ter sonhado… — fala em voz alta para si, mas algo a interrompe e ela deixa cair o bordado. Nada vemos, porém, parece que Sara vê alguém lá fora e sai estancando junto ao canteiro do azevinho, já enfeitado por pequeninas drupas vermelhas.
— És tu António? Fala…que tens? — a voz embarga-se e ela em desespero, como apercebendo-se da falsa realidade, volta a perguntar insistentemente:
— Onde estás?

Sabemos que Sara um dia partiu. Era dezembro, numa madrugada geada. Deixou a casa arrumada. Os gatos entregues à vizinha. Os pertences mais valiosos deu-os à prima. Na igreja, junto ao altar da Senhora, deixou um ramo de ásteres brancas atadas com um lindo fio tricotado. No altar de São Miguel Arcanjo, depositou um singelo raminho de azevinho com os mais belos e reluzentes frutos. No presépio, acendeu uma vela e fez a oração que há muito se desfiava em pedidos de proteção e auxílio.
Sara partiu para o mundo. Um mundo que desconhecia para lá da sua casa, do quintal, da floresta, do pequeno país. Foi sem bússola, sem mapas, sem meios de navegação, somente os pés, a mente, o espírito e aqueles olhos que viam para lá da realidade palpável. Quando a fome e o cansaço venciam este querer de aço, confiava na providência, confiava que algo ou alguém lhe acudisse às vicissitudes. Tinha fé, mais tarde ou mais cedo lá encontrava quem com ela partilhasse o alimento e o lugar do descanso.
Certo dia invernoso, daqueles em que a borrasca impede de todo o ser vivo andar desprevenido e abrigado, encontrou uma gruta. Lá dentro era breu, tenebroso, mas depressa os seus olhos da cor do céu encontraram forma e voz.
— Podes abrigar-te aqui se não queres ficar em gelo…
Sara entrou, cautelosa. A voz era cava e forte, masculina, aparentando já uma certa idade.
— Obrigada por me deixares partilhar este abrigo. Queres uma maçã como em agradecimento?
O som de pés a arrastarem-se entoou pela caverna. O cheiro era forte e acre, mas inspirando suavemente dir-se-ia com laivos a madeira envelhecida. Sara baixou os olhos e estendeu a mão. Sem se sobressaltar, viu que a mão - se assim se poderá dizer – que agarrou delicadamente a maçã, era estranha, nodosa parecendo um ramo, com pequenos galhos entrelaçados, contorcidos, que se volteavam consoante o movimento. De súbito, vindo da escuridão, surgiu um pequeno esquilo que agarrou na maçã e saltitando desapareceu.
Sara sorriu, aconchegou-se no manto de lã e deixou-se ficar apreciando a neve que principiara a cair sobre a mata. Acabou por adormecer. Quando acordou, já manhã, o sol raiava. A neblina depositara-se rente ao solo branco e fofo. Junto aos pés, numa enorme folha verde, estavam alguns cogumelos, medronhos, castanhas e carnudas bagas pretas.
Quando se voltou para agradecer, tornou a ouvir a voz:
— Só quero que partilhes a tua estória para que aqui fique gravada, guardada na memória do tempo da natureza. Depois podes prosseguir o teu caminho.
— Procuro o meu filho. Esta é a minha estória. Partiu para a guerra de um senhor, fidalgo de grandes riquezas, que são cobiçadas por outro senhor poderoso. Matam-nos os filhos, os maridos, os sonhos e a felicidade. Ficamos nós as mulheres, as viúvas, as órfãs…e aquelas que são mães de filhos mortos que não têm nome que as defina.
Sara chorou pela primeira vez. Sentiu que a represa dentro de si se abrira, se rompera numa explosão de lágrimas salgadas que sulcavam o rosto doce, pálido pela tristeza.
— Teu filho morreu? — perguntou o ser, aproximando-se e poisando no ombro de Sara aquela mão estranha.
— Não o sinto morto. Mas começo a duvidar deste meu sentir. Quero-o tanto vivo, que receio já não ter discernimento…
— Crê no que os teus olhos te dizem. Não são eles o espelho da alma? O que vês então?
— Azevinho, senhor.
Mal a mulher o disse, o ser estendeu para ela um pequeno ramo de azevinho, lindo, de folhas intensamente verdes, carregadinho de drupas vermelhinhas parecendo rubis.
Podemos vê-la de boca aberta de espanto. O entendimento iluminado e a alma em júbilo.
Recolheu o azevinho oferecido, enfeitando com ele o trespasse do xaile. Vestiu o capote e partiu para nova caminhada. Correr o mundo. Subiu montes, desceu vales, contornou montanhas, viu o nascer do sol sobre o escarpado mais alto deste planeta, tornou a descer junto ao leito do maior rio da terra e não perdeu o mais intenso pôr-do-sol na ampla savana. Orou então ao anjo, seu protetor e do filho, que a guardasse para encontrar aquela sua metade perdida no mundo, em batalha ou ferido, desacordado de si ou esquecido dos seus abraços.
Confiou nos seus olhos e voltou-se para o interior, para o seu espírito, e viu o seu António, longe e indefinido como névoa. Semicerrou estes espelhos cerúleos onde estava refletido o querido filho e conseguiu definir ainda mais a visão – António sorria para ela e chamava-a, na mão tinha o lenço de linho…


É véspera de Natal. A noite cai célere pelos caminhos. Todos recolhem ao aconchego dos lares procurando o conforto. A lua está escondida, iluminando o céu somente uma intensa estrela que pulsa como o bater do coração. Lá longe, os cães ladram, pressentindo o estranho que vagueia. A coruja impelida pelo latir, pia três vezes e esvoaça tentando descortinar quem vem lá.
Sara caminha a custo e tropeça várias vezes. São muitos os anos que carrega em cada célula do seu corpo. No seu rosto está estampado o cansaço, a vida vivida em constante busca. Perdeu o viço e a cor. É um despojo humano potenciado pela incessante caminhada que se tornou a sua vida, pela busca do filho que não voltou.
— Sara…Sara…
A mulher ouve o seu nome, ainda faz um esforço de elevar o rosto para ver quem a chama, mas nada vê. Curvada, agarrada ao bordão que a segura ao caminho, para. Tenta endireitar as costas, respira fundo. O ar exalado vai espiralando pelo ar como um fantasma. Sara alonga o olhar para a torre da igreja e afina-se a silhueta do arcanjo que parece saudá-la do alto. Sorri e retoma o caminho.
A estrela parece acompanhá-la. Repentinamente, ganha um rasto fulguroso e cruza o céu noturno. Sara espanta-se de a ver e profere a oração. Está exausta, mas finalmente chegou!
Lá está ela parada em frente à pequena igrejinha de madeira. Podemos apreciá-la. Mulher pequena, magra, desfigurada pelo incansável amor na procura, mas de tão grande aura que parece um gigante! Não há luar, mas dela irradia a mais brilhante luz dourada jamais vista.
Do simplório templo esgueira-se também a luz, tremeluzente, convidativa. Ela entra, mas só depois de afagar um enorme arbusto de azevinho que ladeia a estreita escada.
Lá dentro não há ninguém. Perto do altar, em jeito despojado, mas bonito, um presépio. Não está acabado, alguém o arranja para a missa do galo. Ouvem-se passos e o baque de bastão que os ampara. Sara deixa-se ajoelhar junto desta deleitosa cena – o presépio — quer observar cada uma das estatuetas talhadas em madeira e toscamente pintadas, mas as lágrimas não a deixam, distorcem e confundem feições e cores. Sara sente uma mão na sua cabeça. Algo dentro de si brota para além das lágrimas, algo ganha força como um germinar. Volta-se e vê António. Não o António que a deixou há tantos anos, mas sim um homem maduro, tisnado…limpa os olhos e vê o que ele não pode ver. Os seus olhos são pálidos, de uma cor leitosa. António cegou…
Ela levanta-se e abraça-o, proferindo baixinho em emoção:
— António…António, meu filho! Já sei porque não voltaste para mim…
Mãe e filho unidos num abraço intemporal, de amor e luz, rodeados pelos ramos de azevinho, que iam enfeitar o presépio, espalhados pelo chão como ficara a saudade quando o filho partiu.

O tempo não tem memória. Pode curar e transformar, mas esquece e basta o sopro de novas vidas para que se perca o rasto poeirento das lembranças. Mas a natureza lembra, mesmo a mais ínfima lembrança, deixa-a a vogar no cosmos…a ligação entre mãe e filho é eterna, tem memória - a memória da natureza – pois é geradora de vida, é natividade!

 

Conto escrito no âmbito do desafio dos Contos de Natal por imsilva

 

 

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