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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

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Desafio Conto de Natal 2021

As bolachinhas

01.12.21, Olga Cardoso Pinto

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Não, este conto de Natal não é um conto feliz, cheio de luzinhas e prendinhas.
Este conto de Natal também não é sobre o Pai Natal, que ali deixou o trenó e foi algures.
Este conto de Natal, retratado nesta fotografia tirada nos anos 80, é sobre a Mãe Natal. Sim sobre a companheira do Pai Natal, essa senhora que tão pouco se fala, de aparência redondinha, olhos risonhos e bochechas coradas, sempre de avental e de mãos nas ancas, mangas arregaçadas e cabelo branco preso num carrapito no alto da cabeça.
O Pai Natal e a Mãe Natal já não envelhecem mais, como por magia ficaram assim naquela idade em que a vida branqueou os cabelos e enfeitou o rosto por algumas rugas. A Mãe Natal é assim, de aspeto simpático, de peito e regaço acolhedores para um longo abraço.
A verdade é que é a Mãe Natal quem trata de tudo! Admirados? Ah, pois é! É ela quem lê as cartas das crianças, aconselha o Pai Natal sobre os presentes, põe os elfos a mexer na fábrica dos brinquedos, coordena a linha de montagem, trata das refeições, das renas e da malta de elfos e ogres que trabalham na imensa casa do Pai Natal, ou antes da Mãe Natal.
Neste dia, em que foi tirada a fotografia, algo aconteceu de surpreendente. O Pai Natal e a Mãe Natal tiveram uma grande discussão. Pois foi, eles também discutem. Ou acham que um casal por ser de idade já não discute? E olhem que viverem tantos anos juntos não será fácil. A Mãe Natal cansou-se desta canseira natalícia, tudo ela! Ela para tudo e o Pai Natal pouco ajuda. Ela deambulava pela ampla cozinha, cheia de farinha nos braços e na roupa, bufava de tanto trabalho! Os elfos crianças ajudavam, mas era mais a confusão que faziam do que ajuda. A Mãe Natal transpirava de nervos. As renas, lá fora, praguejavam com roncos pela neve intensa que caía, ninguém se preocupava em ir guardá-las nos estábulos…a senhora desesperava e as bolachinhas de mel e cravinho não estavam a ser preparadas. Respirou fundo, aclarou a voz e aos brados chamou pelo Pai Natal. Tudo parou, estático, nem uma mosca se ouvia. Ficaram todos de olhos arregalados pela voz estridente que se fez ouvir! Parecia o Dia do Juízo Final! O Pai Natal há muito que não lhe ouvia assim a voz, sempre tão doce e prestável…até deixou cair o rissol que marchava com uma mini. Não se demorou e foi ter com a Mãe Natal à cozinha. Ela a bufar ordenou-lhe que fosse ao supermercado comprar fermento e farinha. Este ano as bolachinhas de Natal acompanhavam todos os presentes, em especial para as crianças migrantes, dos orfanatos e todos aqueles que não tinham doces para a consoada.
- Mexe-te! E sê rápido! Os fornos já deviam estar a cozer a última fornada. Sou sozinha para tudo, é impossível!
- Mas é de dia e vão ver-me…
- Não me interessa, amanha-te!
O Pai Natal nem respondeu, deu meia-volta, vestiu o casaco. Saiu porta fora com ligeireza, atrelou o Rudolfo e pôs-se a caminho do supermercado.
A viagem foi curta, passou despercebido pois nevava muito. O Rudolfo estava maldisposto pelo frio e pela saída de última hora. O Pai Natal estacionou bem lá ao fundo, tentando que ninguém reparasse nele. E antes que digam, “mas ele estava vestido de Pai Natal”, não, não estava vestido de vermelho, só se veste assim para entregar os presentes na noite de Natal. Ele estava vestido com um casaco comprido castanho, galochas e um gorro verde - falta de gosto, certamente – o Pai Natal não tem jeito para combinações, nem toilettes, é a Mãe Natal quem trata de tudo. Bem, então lá foi ele. Comprou três sacos de farinha e todo contente por se ter despachado, deu uma palmada ao Rudolfo dizendo:
- Vamos lá rapaz! Voltemos para o quentinho!
Estacionou em frente à janela da cozinha para ser visto. Apeou-se, deixando os sacos de farinha no trenó para os elfos descarregarem. Entrou na cozinha, todo inchado de satisfação. A Mãe Natal estava a colocar as bolachinhas prontas em frasquinhos lindamente decorados, olhou-o de soslaio, desconfiada. O Pai Natal ajeitando o cabelo, aproximou-se dela, baixou um pouco o rosto corado e bolachudo e disse-lhe:
- Já tens a farinha. Então, não tenho uma beijoca?
Ela mirou-o, franziu o sobrolho e perguntou:
- Trouxeste o fermento?

 

Este meu conto foi inspirado na fotografia acima colocada, no âmbito do desafio lançado pela Ana de Deus, inspirado no desafio dos Contos de Natal da nossa querida imsilva.

 

 

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