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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

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O Presépio

Contos de Natal 2023

18.12.23, Olga Cardoso Pinto

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O Presépio

 

A cidade enfeitava-se de luzes e decorações natalícias. As montras das lojas exibiam os melhores enfeites, sugestões de presentes, cor e alegria. Doces e iguarias compunham o mostruário das mais finas pastelarias, oferecendo-se à avidez dos transeuntes. Os pequenos olhos engoliam tanta luz, cor, aromas e desejos de brincadeira. Agarrada à mão da colega, lá ia sendo arrastada para o teatro que se exibia ao fundo da rua, todos de mãozinhas dadas como um carrossel. As educadoras palravam sobre as ofertas que iriam fazer, na azáfama das compras, na escolha da ementa, da doçaria... tantas escolhas, quanta agitação, até falavam no vestuário! Ela soltou-se da minúscula mão que a segurava ao bando, ficou embevecida colada à montra, a adorar aquelas figuras, tão pequeninas como ela, que se inclinavam sobre o bebé que placidamente dormia. Pareciam ganhar vida cada vez que as mirava! Eram tantos os pormenores que só uma mirada não chegava para os contemplar. A sua atenção não se desprendeu quando ouviu a companheira chamar “ Matilde! Matilde...anda! Vais ficar para trás...”. O grupo lá seguiu pelo passeio apinhado de gente, numa constante deambulação pelas lojas, pelas confeitarias, pela cidade iluminada onde o final de tarde se insinuava por detrás das nuvens escuras e pelo frio intenso.

Matilde ficara colada ao vidro da montra, embaciando com o seu respirar sereno, o quadro que existia por trás dela. A vaca mugiu, o seu bafo dissipou-se como denso nevoeiro encontrando-se com o do burrinho. O bebé choramingou, agitando-se por baixo da manta. O anjo esvoaçou, iluminando mais intensamente o estábulo. A mãe pegou na criança e amamentou-a. O pai, com extrema doçura, pô-lo a arrotar e sorriu ao sentir aquele arrotinho profundo que só um recém-nascido pode dar. Os reis magos riram, acenando positivamente uns para os outros, felicíssimos por tanta candura. Os pastores e as ovelhas acercaram-se mais, entoando cânticos serenos para acalmar o bebé. A estrela que encimava o lugar, brilhou mais forte. Então, os pastores sentaram-se partilhando entre todos a merenda. Matilde estava extasiada! Nunca vira presépio assim, tão vivo e encantador. Ali ficou esquecida de si, do bando e das educadoras.

A noite caia. Ia-se apagando, aos poucos, o bulício, a correria e também algumas luzes nos estabelecimentos. Somente as iluminações de Natal das ruas davam vida aos recantos da cidade. Matilde ficara sozinha, colada à montra a assistir à vida das pequenas figuras que compunham o presépio. Sentia-se como parte dele e não se apercebera que estava só. Nem o grupo, nem as educadoras se aperceberam da sua ausência. Não fora ver a peça de teatro, nem voltara para o orfanato. Ninguém, dos que passavam, se apercebera da pequena criança sozinha encostada à montra, havia horas. Matilde só tinha olhos para a família que ali estava, para o presépio. Adorava ser aquele bebé, amado por todos e especialmente ter uma mãe e um pai que a amasse, que a embalasse, lhe dessem beijinhos sonoros, sentir-se acarinhada...Quando os pés lhe começaram a doer, acusando as horas ali ao frio, é que a menina se deu conta de si, até o estômago acordou, sentia fome e frio, mas onde estavam todos? Porque ninguém deu pela sua falta?

Ao longe, percorrendo a custo o jardim, uma figura escura corcovada, seguida por um cão enorme. Trazia a reboque o que parecia ser um carrinho de compras. À medida que se foi aproximando e sendo iluminada pelos candeeiros da rua, Matilde pôde descortinar quem seria. Era uma mulher idosa. O cão adiantou-se, avistando a criança e correu para ela. A menina em pânico, pensando que o cão a iria atacar, agachou-se feita novelo e cobriu o rosto com as mãos.

- Anda cá! - chamou a idosa – É uma criança, seu tolo! Gostas de crianças, não gostas?

O cão resfolgou, parecendo um cavalo, abanando a cauda para a mulher e cuidadosamente aproximou-se de Matilde.

- Não tenhas medo, ele não te faz mal. - acalmou-a a senhora – Estás perdida? Onde estão os teus pais?

Matilde nada respondeu, tiritava de frio e de fome. Os pequenos lábios estavam arroxeados. A velha senhora envolveu-a num xaile andrajoso e deu-lhe a mão.

- Anda. Esta noite ficas comigo. Amanhã procuramos a tua família. Está bem?

Matilde, hesitante, lá lhe deu a mão, sentindo-a envolta pela mão da idosa como num casulo nodoso e quente. O cão cheirou-a e lambeu-lhe o rosto frio, mostrando agrado pela sua presença.

Depois de comer um caldo quente e um bolo ressequido, a criança adormeceu encostada à idosa. Soube-lhe quase a casa e a lar. Lar de improvisado telhado em plástico, caixas de cartão como mesa e cama, um recipiente metálico a fazer de lareira, até podia jurar que tinha ouvido música de Natal, mas talvez fosse já a sua imaginação a ser levada no fofo e quente caminho do sono...

Quando acordou, o dia ainda se espreguiçava numa alvorada fria de densa neblina. O cão escuro, de pêlo áspero, dormia encostado a Matilde, aquecendo-a com o calor que emanava do grande corpo. A menina delicadamente fez-lhe uma festa, ele sem abrir os olhos abanou a cauda contente. Ela sorriu satisfeita, fizera um amigo.

- Bom dia! Já acordada?! - perguntou a idosa, regressada do exterior. Trazia nas mãos um embrulho de papel gorduroso e um pacote de leite. - Toma. Come. Hoje vamos encontrar a tua família. Como te chamas?

Matilde não respondeu. Gesticulou com as mãos o seu nome, mas a mulher não a entendeu.

- Não consegues falar? Ó meu Deus, eu não sei essa linguagem, filha... Vamos à farmácia. O farmacêutico pode ajudar-nos.

A menina conseguia ler nos lábios, mas nada compreendeu, pois a senhora não tinha dentes e era-lhe difícil perceber o que dissera.

Fizeram-se ao caminho. Ainda a cidade dormia, era sábado. Só alguns comerciantes iniciavam a abertura das lojas. As luzes apagavam-se lentamente pela cidade. A neblina envolvia os edifícios, deixando pequenas pérolas de humidade alcandoradas nas plantas e nas cercaduras do jardim. Matilde soltou-se da mão da idosa ao reconhecer a montra ao longe. Correu afoita e voltou a pespegar-se ao vidro em plena contemplação do presépio. Todas as figuras dormiam, à exceção dos animais que se alimentavam, ruminando a erva e o musgo que serviam de enfeite ao presépio. O anjo, que encimava o estábulo, espreguiçou-se e esvoaçou para esticar as asas, apercebendo-se que Matilde o admirava, acenou-lhe efusivamente. A menina arregalou os olhos, admirada. Ainda mal recuperara deste assombro, já os pastores, reis magos, Maria e José lhe acenavam com alegria. Somente o menino esbracejava principiando um choro de fome.

- Anda! Que fazes aí especada? Vamos, a farmácia já abriu...

A mulher puxava-a por um braço, forçando-a a deixar a beleza do presépio. Matilde fazia força, como dizendo que não iria arredar pé dali, a velha mulher voltava a puxar. A criança dizia que não com a cabeça e apontava para a montra.

- Sim é o presépio, mas agora vamos...não queres encontrar os teus pais?

Matilde continuava a não entender o que a mulher lhe dizia, queria ficar ali. A idosa não teve outro remédio senão deixá-la e ir sozinha à farmácia. Voltou pouco depois com um homem alto, muito magrinho, de óculos grossos na ponta do nariz e de bata branca. A menina assustou-se ao ver a bata e encostou-se ao cão.

- Não tenhas medo. - disse o farmacêutico com a voz mais calma que conseguiu – Como te chamas? Não ouves ou não consegues falar?

O homem baixou-se, ficando quase da altura de Matilde. Tinha um rosto simpático, era careca e tinha um grande sinal na bochecha, parecia uma carocha, a menina teve vontade de rir ao imaginar que aquele sinal saísse dali a voar como uma joaninha. Ela entendera o que o senhor lhe acabara de dizer, finalmente compreendia! Respondeu gesticulando as palavras para “ esqueceram-se de mim”. O farmacêutico não entendeu, não sabia língua gestual.

- Que grande maçada! Não te entendo, menina. Não conheço ninguém que saiba linguagem gestual... Talvez o sapateiro!

Foram, então ao sapateiro. Nada, também não sabia.

- Talvez na mercearia. Pode ser que alguém dali saiba. Mas ninguém te procura? - inquiriu o homem, cofiando a barba.

Matilde encolheu os ombros e gesticulou mais uma frase que ninguém percebeu. A menina queria era voltar para junto do presépio.

Deram voltas e mais voltas pelos estabelecimentos abertos. A criança já nem sentia os pés e a barriga já dava horas. A idosa também deve ter sentido o mesmo, cansada e frustrada por não haver alguém que soubesse falar com a menina, deixou-se cair num dos bancos do jardim onde costumava alimentar as pombas.

- Sabes uma coisa? Vamos descansar aqui um bocadinho. Toma dá umas migalhitas às pombas que devem ter tanta fome como nós. Depois logo veremos quem nos pode ajudar...

Matilde percebeu os gestos da idosa que se esmerara em comunicar. Encantou-se com as pombas que lhe subiam para o colo e para a cabeça. Um dos pombos, castanho e de peito luzidio, todo ele ladino, saltou-lhe para o ombro. Abeirou-se do ouvido de Matilde e segredou-lhe “ Vai à loja do presépio, lá podem ajudar-te...e quem sabe, pode fazer-se Natal...”. Matilde estupefacta, pois não conseguia ouvir som algum, ouviu o pombo, e que ela soubesse, nem falava língua de gente!

Levantou-se de supetão e puxou pela manga da idosa, obrigando-a a arrastar-se pelo jardim fora até à loja da montra com o presépio.

- Outra vez não! Mas tu não tens fome? Só queres ver o presépio? Sabes, tudo isto do Natal é uma imposturice...é só comércio, gulodice desmesurada, são todos amigos e abraços, felizes...mas a pobreza, a guerra, a avareza, continuam por cá! Os pobres, esquecidos de todos, depois do Natal continuam a ser pobres...

Matilde continuava a agarrar a manga da senhora puxando-a para dentro do estabelecimento. O cão seguia no encalço delas e a esvoaçar ia o pombo. Lá entraram a custo, pois a idosa teimava em não querer ir.

Detrás do balcão, surgiu um rosto sorridente enfeitado por rosetas coloridas e olhos que pareciam amêndoas.

- Olá, boa tarde! Bem-vindos à loja solidária. Precisam de algo para comer? De vestir? Talvez para calçar?

- Não, obrigada! - respondeu a idosa – Estamos bem...aqui a pequena embicou com o seu presépio. Fica ali especada...

- Oh, é um presépio mágico! Veio de muito longe...

- Ela não a consegue ouvir...é surda.

A jovem mulher baixou-se ficando à altura de Matilde.

- Gostas do meu presépio? - a menina acenou que sim com a cabeça – Veio de muito longe e é muito antigo! Vem, vou mostrar-to...

De mãos dadas foram até à montra. Matilde estava felicíssima, pois pôde pegar nas figuras e apreciar, de olhos luminosos, a finura e o pormenor das esculturas talhadas na madeira. Eram tão lindos! Quando as poisou elas voltaram a ter vida! Entretanto, alguém veio de dentro do estabelecimento. Era um rapaz, talvez da mesma idade de Matilde. De cabelo encaracolado e pele muito branca, com sardas que lhe sarapintavam as bochechas e o nariz. Ficaram a conversar toda a tarde, após um almoço leve rematado com uma generosa fatia de bolo de chocolate, como Matilde tanto gostava. As crianças engraçaram logo uma com a outra, ambas conversavam animadamente em gestos, numa linguagem universal que só as crianças conseguem entender.

A idosa esclareceu como ficou com a menina. Nada sabia sobre ela. A jovem estranhou não procurarem a criança. Assumiu que se tinha perdido, mas não deixava de ser estranho a família não encetar mediadas para a encontrar. Decidiu procurar ajuda imediatamente.

Os dias foram passando. Matilde continuava entregue aos cuidados de Florinda, a jovem da loja solidária. Acolhera-a de bom grado, salvando-a do frio e da parca comida que a idosa lhe poderia dar. Porém, pouco sabia sobre a menina, apenas o que ela própria partilhara com o filho, o pequeno João. Chamava-se Matilde, tinha sete anos e vivia num lar com muitas crianças. Florinda visitou dois lares que existiam perto da cidade, mas nenhum deles perdera uma criança. Como era possível?

Matilde ganhava cores e alegria. Ajudava na loja e partilhava o dia com João, sempre em brincadeiras, mas o momento do dia que ela mais adorava era aquela hora do fecho, quando ia limpar as figuras do presépio. Aí tinha longas conversas com todos os seus intervenientes, aprendera tantas coisas, soubera tantos segredos...partilhava com eles, também, os poucos anos da sua vida, até onde a sua memória abarcava. Soube a história da família de Florinda, a sua luta pela sobrevivência, e até a origem do próprio presépio, teve que jurar nada contar, pedindo abrir exceção para poder contar ao João.

Quando a véspera de Natal chegou, Matilde ainda estava com Florinda, o marido e pai do menino, o Alberto e o João. Matilde nunca fora tão feliz. Nunca tivera uma consoada tão alegre, com tantos presentes e boa comida. Nessa noite, deitada na sua cama confortável e quente, lembrou-se dos anos passados no orfanato, estremeceu com a lembrança, da tristeza de não ter família...sentiu saudades da educadora e da companheira a quem dava a mão quando saiam da instituição, mas nada era comparável ao que agora vivia. Quando estava quase a adormecer, sentiu um formigueiro nos pés que não a deixava sossegar. Levantou-se, desceu as escadas e foi até à loja. A penumbra reinava no interior, somente a entrada, junto à montra, estava iluminada pelas luzes da rua. De repente algo mais intenso, mais luminoso saiu do presépio, passou magicamente através do vidro, lançou-se ao alto e cruzou o céu. Correu, incrédula, até à montra e viu uma estrela cintilante. Toda ela enchia o espaço negro da noite. Então, Matilde fechou os olhos, empunhou as pequenas mãos e rezou. Pediu para ficar com aquela família, pediu para viver naquele amor, naquele cuidar constante, no mimo dos dias e dos anos que a fizessem mulher. Teria assim uma mãe, um pai e um irmão, feitos presépio, de esperança e futuro.

Nesta véspera de Natal, mais uma vez, após tantos anos decorridos, Matilde voltará à montra empunhando as mãos e rezando, à hora em que a brilhante estrela cruzará o céu. Agora já de cabelo branco, de mãos engelhadas pelo tempo e de corpo torcido pela velhice, persiste em viver de coração forte e espírito palpitante como uma estrela, grata, sempre grata por ser parte do seu presépio.

 

 

FIM

 

 

Mais um Natal, mais um desafio dos Contos de Natal a tornar-se tradição por aqui nos blogs do Sapo. O Presépio é o meu contributo para este ano, espero que gostem.

Pesa-me na alma e na escrita o momento que vivemos neste mundo conturbado, tempos que poderiam ser de regozijo e paz duradoira, desfrutando, a Humanidade, de tantos avanços tecnológico, médicos e saber partilhado em prol dos menos favorecidos, mas escolhe-se o confronto, a morte e a maldita da guerra. Pobres das crianças que não terão um Natal que se estenda por toda uma vida.

Depois deste desabafo, agradeço à nossa querida Isabel, do blog Pessoas e Coisas da Vida por este desafio se concretizar neste ano, embora sem livro, mas com muitos contos que já rolam por aí a unir-nos na escrita.

Um Feliz Natal para todos.

Para ouvir, enquanto lê: Bing Crosby - I Sing Noel

 

 

 

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