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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

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Outubro em Outono

01.10.21, Olga Cardoso Pinto

outubro em outono.jpg

No caminho atapetado, iluminado pelos tons envelhecidos, restolharam as folhas. Setembro findara, não sem antes preparar a chegada do Outono que chegaria em força em Outubro.
A brisa fria soprou de manso fazendo esvoaçar os longos cabelos fulvos, como um beijo de boas-vindas. Parou olhando em volta, a cada olhar seu cada árvore, arbusto e giesta ganhava o viço do amarelo, do ocre e do laranja, num cambiante de tons ricos e de cheiros refrescados pelo orvalho da matina. Pendentes, parecendo cristais, decoravam os ramos; pequeninas pérolas deste rocio rolavam pelo musgo frio e fofo regando pacientemente as pequeninas ervas que ascendiam.
Lá ao longe, o recortado das serras assemelhava-se a um quadro de sombras, desvanecido quase irreal, pela neblina que se lhes alcandorava. As aves saudaram-no, num canto magistral desconhecido. Pelas vestes do eterno ancião, germinavam retorcidamente pequenas videiras e silvas de onde pendiam reluzentes cachos de uvas douradas, de uvas pretas e bagas silvestres. Estendeu a mão e alimentou as aves que nele se empoleiraram.
Descobriu-se o Sol, incidindo nas pérolas e cristais do orvalho que piscaram tão vivamente, como se fossem pequeninas estrelas cintilando no firmamento. Daí a nada os castanheiros exibiam os ouriços grávidos de gordas castanhas, as nogueiras pendiam os altos ramos oferecendo a riqueza das suas nozes rompendo o denso casaco que as aquecia. Quando ele passou, caminhando lentamente pelo caminho, todo o arvoredo se inclinou, venerando sua majestade que chegara. Sob a sua longa veste espreitaram, encantados pelo cenário que se compunha, duas crianças de diferentes idades, de olhitos curiosos e bocas de espanto. Ele recolheu um pouco o manto e deixou-as espreitar, eram elas o Inverno e a Primavera, esta ainda pequenina mal sabendo andar e, no entanto, trazia na mãozinha papuda uma bola de cristal quente, que continha uma perfusão de cores líquidas em constante movimento, era o Verão em gestação. Depois, cansado pela viagem, acomodou-se entre duas aveleiras deixando-se dormir. As crianças recolheram-se para dentro do encorpado manto, recostando-se naquele corpo imenso, quente, reconfortante. Tudo irradiava sossego, pausa, reflexão.

 

Foto: Peneda-Gerês

 

 

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