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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

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Ponto a Ponto se une um Conto

Em Viagem... Dia 2

24.10.19, Olga Cardoso Pinto

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Olá Amigas, Amigos e Leitores Anónimos!

Agradeço o vosso regresso para mais uma leitura do conto, esperando que continue interessante e a despertar cada vez mais a vossa curiosidade.

Aguardo os vossos comentários, eles são importantes para mim!

Um abraço!

 

 

DIA 2

 

     A chuva hoje está forte e promete ficar! Bem sei que é precisa, mas aborrece. Tudo fica transformado pela sua presença, até o humor.

     Vou aqui sentado, no meu canto junto à janela, divagando com o olhar pela paisagem encharcada, nada de pássaros, nem crianças… tudo parece chorar pela vinda do sol!

     Reparo na velhinha no cais. Naquela idade porque andará, a esta hora e com esta chuva, a transitar por aqui? Não trabalhará certamente, terá alguém para cuidar? Talvez vá a uma consulta… vejo-a a entrar e dirigir-se para o lugar desocupado junto a mim!

     — Então, bom dia, jovem!

     — Bom dia! – fico feliz pelo seu cumprimento, talvez o primeiro feito no metro, e atiro-lhe logo com uma pergunta, em jeito de isco para lhe fisgar uma conversa:

     — Com este tempo anda a passear?

     — Qual quê! Tenho de ir ao hospital! Tenho consulta!

     Yesss! Acertei! E para não perder a embalagem, volto à carga:

     — Mas hoje está péssimo! Ainda apanha uma valente gripe!

     — Isso não! A médica do centro de saúde queria que apanhasse a vacina, mas eu respondi-lhe que nem pensar! Querem é matar os velhos com estas vacinas! Vacinas antivelhos! – e deu uma valente gargalhada à qual não resisti e também desatei a rir, dando-me conta que ultimamente não me ria assim tão alto! Uma velha a fazer-me rir, há coisas mesmo engraçadas! Todos nos olham com ar estranho!

     — E você, caro jovem? De onde vem e para onde vai?

     — Eu venho de minha casa, vou de metro para o trabalho, sou professor numa escola secundária!

     — Ah, é? Então é professor de quê? – perguntou ela mirando-me de cima a baixo. Eu inseguro, mirando-me também, não fosse ter algo sujo ou coisa assim e respondi-lhe:

     — Sim! Sou professor de filosofia!

     — E isso trata de quê? – indagou ela, revirando algo que trazia num saco.

     — Trata de questionar as coisas da vida, da nossa existência, da natureza, da arte e do universo! Filosofia quer dizer amor à sabedoria!

     — Muito bem, jovem! Ah o amor… tome e ande sempre com isto, vai fazê-lo sentir-se melhor! – deu-me para a mão algo que não reconheci de imediato. Senti o seu toque quente e suave, embora, pelo aspeto da sua mão engelhada e com manchas sanguíneas, me fosse parecer que esse toque seria frio e desagradável.

      — Agora tenho de ir, vou sair aqui! – pousou-me a mão no ombro e proferiu algo inaudível para os meus ouvidos, mas senti um alento morno que se enroscou no meu coração, lembrando-me da minha querida avó Natércia!

     Desejei que a velhinha ficasse até ao fim da minha viagem, conversando comigo e ajudando a passar os minutos. Segui-a a atravessar o cais, acenei-lhe e ela correspondeu sorrindo. Depois, senti na minha mão o que ela me tinha dado. Era uma flor murcha, pareceu-me uma orquídea de cor lilás! Não percebi a sua intenção e fiquei desejoso de a voltar a encontrar para lhe perguntar!

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