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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

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Ponto a Ponto se une um Conto

O Outro Lado do Rio - 4º episódio

21.11.19, Olga Cardoso Pinto

o outro lado do rio (6).jpg

Termina hoje este conto que foi desfiado durante quatro semanas. Espero que nesta singeleza de contar estórias, vidas e sonhos o tenham apreciado. Para alguns foi o avivar de memórias, para outros foi uma leitura alternativa às suas habituais leituras, para outros ainda, talvez tenha sido uma experiência reconfortante, envolvida num mistério bom de deslindar. Para mim foi gratificante contar com as vossas apreciações e foi com imenso carinho que vos ofereci este conto que nasceu de uma inspiração, de um amor miudinho que começou a crescer e de um sonho meu.

Um beijo imenso e obrigada!

 

 

   A alvorada chegava fresca, a jovem mulher acordou e despachada caminhou em direção ao rio que corria calmo por entre as bordejadas margens de verde em flor. Despiu-se e segurou na palma da mão o seixo perfeito em forma e em cor e cantarolou baixinho, qual melro afinado “Rafael, Rafael, Rafael!”. Então o seixo iluminou-se, tremeluzente em princípio e depois em tom forte, radioso. Uma sensação de queimadura, mas sem dor, envolveu as mãos da jovem e todo o seu corpo foi dominado por uma vontade de se atirar ao rio, mergulhar nesse manto líquido, nas suas entranhas húmidas. As pernas moviam-se ligeiras e as mãos em concha seguravam o seixo que irradiava cada vez mais uma luz intensa, como uma tocha. Parecia que um potente íman a sugava em direção ao fundo. A velocidade com que a jovem se deslocava era irreal, já conseguia ver o leito do rio, onde ele dormia descansado sem correnteza nem pressas. Um manto verde, salpicado aqui e ali por seixos multicolores, atapetava este sereno álveo. A rapariga tentava abrandar, mas era impossível, certamente embateria nesse leito e acabaria por morrer inconsciente. Então, num reflexo fechou os olhos prevendo o embate, e sentiu-se leve, sem peso, sem fricção… abriu timidamente as pálpebras e deslumbrada pelo que via deixou-se pousar naquele chão, que não era chão, tocou na árvore que não era árvore…inspirou e constatou que havia ar… que não era ar, era um perfume conhecido…a flor de laranjeira e viu o irmãozinho que corria para ela!”

     A menina cujo nome era da flor despertou desta memória que a envolvera toda a tarde, recordando a história que a avó lhe contara. Ansiosa pela noite aveludada, confidente e silenciosa pespegou-se à janela do quarto esperando-a. Afagava na mão papuda o fresco seixo e de quando em vez, sem ter a noção, levava-o às narinas enfeitadas pelas sardas. Inspirava o seu odor fresco e limpo, que a queria transportar para o progenitor líquido e sereno do rio de verão.

     Já ia velha a noite, quando a lua cheia e radiosa curvou por cima da morada da menina. Os seus raios crus iluminaram o seu pequeno rosto quase adormecido colado ao frio vidro da janela. Ela pestanejou e olhou para o seixo descorado e acomodou-o entre a pele e a roupinha lavada que lhe cobria o alvo corpo. Foi-se deitar já tonta pelo sono, embalada pela alegria próxima que a aguardava no fundo do rio.

     O canto melodioso da cotovia acordou-a! Saltou da cama e num repente voltou-lhe a saltar em cima à procura da sua pedra mágica! Onde estava? Revolveu as roupas e lá estava ela, escondida nos lençóis! Pegou-lhe como a um filho, beijou-a amorosa e depositou-a no bolsinho da saia rodada.

     Os passos apressados levaram-na à margem verdejante do rio. A frescura da manhã acariciava as bochechas rosadas da menina. Ela inspirou confiante essa frescura gostosa que lhe saciava a alma e o mais pequenino recôndito do seu pequeno e bondoso coração.

     Tomou o seixo na palma da mão e melodiou três vezes o lindo nome da avó:

     —  Amélia, Amélia, Amélia!

     A pedra iluminou-se tal como na história que a avó lhe contara, sabia ter sido verdade porque a idosa era envolvida por uma certa luminescência quando historiava sobre as suas vivências. Sentiu todas as sensações narradas por Amélia, num misto de assombro e receio, no entanto o seu coração redobrou-se em felicidade ao saber que daí a pouco poderia encontrar a sua querida avó! Sentir o seu perfume, o seu toque mimoso, ouvir a sua voz quente sussurrando-lhe doces palavras e embalando-a no regaço.

     A vontade de mergulhar começou a dominá-la e ela deixou-se levar para aquele rio, quase ser, feito de água, limos, peixes, seixos e esperança! Foi ao fundo com uma rapidez inverosímil deixando atrás de si uma nuvem de bolhinhas produzidas pelos pés feitos barbatanas. De facto, parecia haver um íman que a puxava, que a atraia para o fundo e lá estava o manto verde cobrindo aquele verdejante leito real de um senhor que reinava neste frio reino líquido. O seixo rebrilhava, tinindo, vibrando-lhe nas mãos. Ela sentia-se levitar, ondulante. Quando poisou no chão, que não era chão, perscrutou a paisagem, que não era paisagem, na tentativa de encontrar Amélia. Por detrás de um bruxuleante arvoredo surgiu aquela voz que dizia cantando o seu nome “Rosamar! Rosamar! Rosamar!”

     A menina encantada pelo encanto daquela voz, travou um soluço que lhe acometeu a garganta seca, ávida pelo encontro que lhe aconchegasse o coração!

     — Avozinha! — e abraçaram-se longamente, impedindo que a separação as dividisse sem preencherem a alma daquele amor sorvedouro da saudade que lhes minava a espera.

     — Minha querida e doce Rosamar! Vieste ver-me!

     — Sim avozinha! Queria tanto ver-te! — e continuava abraçada à cintura da avó que lhe afagava os cabelos e a beijava incansavelmente.

     — Sabes como é perigoso! Não te podes demorar!

     — Sei sim, avó! Mas deixa que me delicie com este momento da tua presença.

     — Claro que sim! E eu com a tua!

     — Oh Vó, tenho tantas saudades tuas! Não me despedi de ti! Partiste sem nada me dizeres…

     — Bem o sei, minha querida. Mas sobre isso nada posso contar…

     — Olha, tenho uma pergunta que gostava de te fazer. Para onde vais? A mãe diz que foste para o céu…, mas eu sei que não, dizem que é aqui para onde vêm os esquecidos!

     — Sim é verdade! Aqui estão os esquecidos, não por quem deixamos, os esquecidos somos nós! É verdade! Aqueles, que como eu, são apanhados desprevenidos e partem sem se darem conta disso, sem se despedirem. Ficamos aqui à espera de que alguém converse connosco, nos traga vivos nas suas memórias e se venham despedir. Depois partimos uns em direção ao mar num retorno constante, renovados; outros em direção à nascente, voltando para a mãe d’água, límpidos para regar a terra e a vida!

     — E tu para onde vais?

     — Ainda não sei! Estará para breve, pois tu vieste despedir-te neste doce adeus que levarei comigo!

Envolveram-se num abraço do qual não se percebia quem era a menina e quem era a idosa, ambas partilharam o mesmo ser, o mesmo corpo, etéreo, palpável, físico e espiritual.

     — Agora vai, minha querida! Está na hora!

     — Vou avozinha! Ficarei feliz toda a vida com esta lembrança!

     O beijo que partilharam dissolveu o tempo, o espaço, a prega que divide a vida da morte. A menina acordou na margem sob o sol matinal, revigorante, esquecida do feliz encontro. O rio no qual se banhara e onde encontrara a querida avó, do outro lado como um reflexo, numa passagem mágica, roubou-lhe a memória, engoliu no seu vórtice de água qual sortelha esse momento místico que acalentou a alma da pequenina. O encontro mitigou a saudade, embora esquecido, ficara alguma réstia no seu coração, aninhado discreto, caloroso como uma lamparina.

     Três estações passaram na vagarosa aldeia. Renovada e antiga, nesta ambígua existência, guarda em si uma preciosidade feita criança que passa os dias brincando e deambulando inocentemente à beirinha do manso rio, domesticado pela canícula.

     A frescura percorre a casa, na sombrinha confortável da média luz. Num cantinho da janela do inocente quarto, guardadinho na minúscula caixa, repousa o fresco seixo. Inquieta-se com a lua cheia, vibra de emoção quando é levado ao rio e também, quando da memória da menina surge bruxuleante a lembrança rendada da avó Amélia entrelaçando-se nela e indo depois mergulhar na corrente fresca, o berço da sua existência.

     Rosamar, guardiã do fresco seixo, entra no rio refrescando as pernas nuas, encanta-se com os reflexos que o sol faz na superfície da água, desenhos que desvanecem, reorganizando-se noutras formas. Os insetos esvoaçam sobre o espelho que os enfeitiça. A água corre numa melodia enrolada, fresca, suave, jovem…vinda da mãe d’água, do ventre da terra, rejuvenescida e intemporal. Rosamar faz uma concha com as pequeninas mãos e sorve deliciada aquele frescor, feito seiva, líquido amniótico nutritivo e balsamo eterno!

     Do outro lado do rio alguém a vê, alguém espera, alguém espreita… aguarda que lhe cantem o nome, esperançando que haja um seixo redondinho, bem polido, tão perfeito, que seja a chave para esse lado do rio!

 

 

FIM

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