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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

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Ponto a Ponto se une um Conto

Histórias de uma Árvore - 3º capítulo

12.12.19, Olga Cardoso Pinto

freixo e menina5.jpg

Olá Amigas e Amigos Leitores! Hoje partilho o último capítulo do conto Histórias de uma Árvore e com ele termino a rúbrica Ponto a Ponto se une um Conto, entretanto regressará após as festividades. Espero que tenham gostado das leituras às quinta-feiras e aguardo a vossa presença em futuras tertúlias de contos ou outras ficções aqui no blog.

Obrigada pelo vosso apoio e simpatia!

Bjs

 

 

     Maio chegou pleno de sol, de dias longos e noites cálidas. Os grilos cantavam ao desafio melodias repetitivas juntando-se ao coaxar das rãs que habitavam o ribeiro.
     Ainda todos dormiam, quando a antiga árvore despertou, olhou em volta e sorriu! Respirou fundo e agitou os ramos, mas ao de leve, não queria que a passarada caísse ao chão! Aos poucos lá foram acordando, aves, mamíferos, insetos e tantos outros que o Freixo parecia enfeitado como uma árvore de Natal!
     — Bom dia, meus queridos amiguinhos! Sei que dormi demais! Mas que querem!? Estou velho e isto de estar a falar horas e horas cansa, e muito!
     O velho Freixo revelou ter mais de seiscentos anos, que fora acarinhado e atormentado ao longo de tantas épocas.
     — Vi cruzados e cavaleiros, senhores e criados! Povos de outras línguas e países. Vi as vontades e os tempos mudarem, e eu sempre aqui a crescer, a agarrar-me ao chão, a envelhecer erguendo-me para os céus. As minhas raízes estão cada vez mais fundas, dirigem-se para o interior, para o centro da Terra! Talvez um dia encontre o seu coração incandescente!
     — Nãooo! – retorquiu inquieto o mocho. – Assim podes queimar-te, irmão Freixo!
     Então, o Freixo ancião revelou que há muitos séculos tivera a sua vida em risco quando um relâmpago o atingiu numa noite de um verão tórrido. Que se enamorara pela jovem que o plantara, e que cuidara das suas queimaduras, desejando poder transformar-se num rapaz! Ela abraçava-o tanto, falava-lhe da sua vida, dos seus sonhos…
     — Bem, mas isto são estórias passadas! – e calou-se tristonho, talvez com saudades da rapariga pela qual se enamorou. Todos queriam saber o que se passou com a moça, onde estaria, quem era…, mas ele nada revelou, voltou a calar-se e embrenhar-se no seu silêncio. Por aquele dia terminara a partilha de memórias.

     O verão revelou-se abrasador, dias quentes que consumiam as energias, o alimento e a água. O ribeiro ia ralo, aos poucos as ervas e as plantas morriam, deixando o campo manchado com o tom da seca.
     Os animais, as plantas e todos os seres gritavam por água! Então, o velho Freixo condoído pela dor dos amigos e de todos os seres, abriu a boca larga e cantou… a melodia envolveu o ar, redopiou e foi levada pela brisa até às nuvens. Como ordenadas e comandadas por uma forte vontade, as nuvens juntaram-se, formando grandes almofadas cheias de água, com chuva prestes a cair dando de beber à terra e ao ribeiro ávidos, sequiosos daquela água límpida e retemperadora.
     Os Homens nada viram assim, a chuva providencial de onde viera? Salvaram-se as reservas de água, os campos e os futuros cultivos. Abençoada chuva! Os animais estavam admirados! O seu amigo Freixo tinha poderes! Conseguira fazer chover, salvando-lhes a vida!
     Foi então que naquele final de tarde, uma criança de andar vacilante veio sentar-se debaixo da árvore abrigando-se da chuva que caía copiosamente. Trazia consigo um caderno e começou a desenhar ao mesmo tempo que cantarolava uma melodia que o Freixo reconheceu! Bateu-lhe forte o coração de árvore, ribombou no mais recôndito do seu ser, aquele músculo que bombeava a seiva para que vivesse eternamente. Ficou tentado e tocou-lhe ao de leve nos cabelos e ela sentindo, olhou para cima e sorriu! Depois, virou para ele o desenho e disse-lhe:
     — És tu! Gostas? – sorriu novamente, dando vida às covinhas que tinha nas bochechas.
     Os bichos estavam todos intrigados, escondidos entre os ramos e na vegetação que ladeava a árvore. A menina ouviu o restolhar e chamou, sem medo, divertida por ali estar. Os coelhitos, os esquilos, as cobras e tantos outros, foram ter com ela, primeiro hesitando, a medo, mas a criança estendeu-lhes as mãos papudas, cheiravam a alfazema e alecrim.
     — O sol já voltou, posso ficar mais um bocadinho? – perguntou ela ao Freixo.
     Ele respondeu-lhe com um aceno de copa. E ficou quase até à noitinha, desenhando e brincando em volta do Freixo, apanhando algumas ervas tentando os gulosos coelhos e esquilos que, entretanto, se revelaram e corriam em brincadeiras tontas. Depois abraçou a árvore e disse-lhe:
     — Amanhã volto! Posso?
     Ele, mais uma vez, afagou a cabeça da criança, mas nada respondeu para não a assustar.
     Nos dias seguintes a menina voltou, instalou um baloiço no qual passava os dias a elevar-se no ar, tocando com as pontas dos dedos a imensa copa da árvore. No interior do tronco, onde o relâmpago escavara um buraco, a criança depositou uma pequena caixa de madeira delicadamente trabalhada. No seu interior guardara três flores: uma rosa vermelha, uma margarida viçosa e uma zínia branca. Confirmou que a caixa estava bem resguardada e segredou ao velho Freixo que este seria o seu segredo, o seu tesouro. A formosa caixa foi envolvida pelas heras que se enroscavam e subiam pelo velho e rugoso tronco, ocultando o segredo partilhado entre a árvore anciã e a amorosa, bondosa e inocente criança.
     Os animais, já acostumados com a sua pacífica presença, acercavam-se da menina e brincavam à sua volta, aguardando pelas guloseimas que ela lhes trazia em forma de cenouras, alfaces e maçãs.
     As semanas foram passando e o outono ganhava vida, voltava para colorir de tons ocres e alaranjados as cabeleiras das árvores.
     Numa dessas manhãs já frias, que da boca saem palavras de fumo e o nariz fica a pingar de enregelado, a menina trazia no cesto de vime rebentos de freixos, jovens e delgados. Com as pequenas mãos fez algumas covas e plantou mais duas árvores.
     — Vão crescer e ser os teus companheiros! Serão a casa dos pássaros, dos esquilos, dos bichos de conta, das formigas, dos coelhos…assim vocês poderão fazer chover e não haverá seca, nem animais mortos de sede, haverá pasto e água para todos! - acercou-se do velho Freixo e abraçou-o. — E tu, vais ter companhia para sempre!!!
     O Freixo comovido por tanta bondade, deixou que um dos galhos roçasse ternamente o rosto da criança. As folhas já eram poucas, dando um aspeto desgastado à árvore antiga, mas ela não se importou, pois sabia que dali a uns meses voltaria a florir e a ter as suas lindas folhas. A menina permanecia abraçada aquele tronco rugoso, áspero, mas acolhedor e terno. Sentiu dentro dele o bater da vida, da ancestralidade que os ligava e ouviu uma melodia, reconheceu-a e cantou também. As vozes entoaram juntas até ao céu, fazendo as nuvens agruparem-se, envolverem-se e gerarem dentro de si o líquido essencial à vida, depois choveu, choveu durante muito tempo! Ficaram assim envoltos naquele abraço que abarcava dois seres, dois mundos tão diferentes e tão iguais!
     Emanou do Freixo um ligeiro orvalho que cobriu as folhas, a menina e tudo em volta. Cheirava a terra, mas também a mar, a flores silvestres e a musgo. Era a chuva mansa produzida por uma árvore tão antiga, conhecedora do mundo, embora nunca dali tivesse saído! A menina sentiu no rosto, nas mãos e nos cabelos aquela humidade sã, aquele pulsar de vida que emergia do sábio Freixo, levantou o rosto para o admirar e ele, pela primeira vez abriu a sua boca e proferiu baixinho, quase em sussurro:
     — Eu sou a Árvore da Vida! Eu e tu partilhamos um segredo!

 

 

FIM

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