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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

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Quartas de Contos

Avelina I

14.02.24, Olga Cardoso Pinto

Às quartas-feiras irei por aqui publicar, na íntegra, contos meus. Alguns excertos já foram partilhados, porém, agora achei que gostaria de os partilhar com todos aqueles que gostam de me vir "visitar" ao blog. Espero que apreciem, conto com os vossos comentários e agradeço, com carinho, as vossas leituras. Bjs

 

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AVELINA

 

Uma aldeia recôndita, enovela-se, aninhada entre a montanha e a imensa floresta. Um mistério que é também um milagre feito criança na vida de um idoso casal.
Um conto inspirado no percorrer de caminhos escondidos, onde cada descoberta é uma surpresa. Floresta, lameiros, pastos, ribeiros e levadas. O bucolismo de uma região fantástica onde a Natureza nos acolhe e acarinha no ancestral e verdejante Minho.

 

🍃


Era uma vez uma aldeia esquecida pelo tempo. Desafiava a vida, encimada, numa branda serra onde os dias corriam vagarosos, desfiados pelas estações que alindavam os campos de produtos hortícolas e as árvores eram enfeitadas pelas frutas da ápoca, após uma eloquente profusão de cor em flor.
A aldeia vivia neste pacífico remanso, somente interrompido pelas tormentas do inverno que traziam as águas revoltas ao brotarem das mães d’água, afoitas para inundarem os campos e engravidarem as levadas ansiosas por chegarem ao rio, seu senhor, dissolvendo-se umas nas outras e deixarem-se levar por ele até àquele imenso desconhecido, de azul e sal.
Ao caminhar, descendo e saindo do aglomerado da aldeia, a vista alonga-se num verdejante pasto onde se refastelam gordas vacas. Perto do termo do abraço florestal, em local mais soalheiro como num quadro bucólico, uma pequena casa em ruínas. Consegue-se, sem esforço, imaginar o fumo encaracolando vindo da chaminé, reinasse o estio, calor ou gelo, nesta moradia que ainda se ergue humilde na sua pequenez granítica. Outrora, coroava-a um jardim repleto de flores coloridas, de pequenas árvores de fruto ajeitadas, um poço e algumas galinhas que esgravatam a terra escura. Dentro deste jardim fresco e pintalgado de variadas paletas, a casa fora habitada por um casal em que a cinza do cabelo e os traços das rugas definiam qual a distância percorrida no caminho da vida. Viveram o desfiar dos dias harmoniosos e continuamente apaixonados pelo amor que os uniu em tempos, fortalecido pelas alegrias, experiências e desventuras também.
A porta da casa, quase sempre aberta e escancarada para a vida, mostraria duas versões da mesma realidade: uma para o exterior - campestre e verdejante, e outra para o aconchego mimoso do seu interior.
A singela habitação rústica, noutros tempos, exibira uma beleza irrepreensível à semelhança dos seus ocupantes. Embora um pouco decrépita e delapidada da sua robustez, à moradia ainda se podia chamar de lar, porque no seu íntimo reinava a pacatez do lume brando. Sobre a pedra do lar descansava o pote de três pernas, envolvendo o local de reconfortantes odores oriundos do estufado de carne com hortaliças e feijão, borbulhante e fumegante à espera de ser apreciado numa malga de barro, em companhia de um pedaço de broa e por um copo de vinho verde.
Um arrastar de pés ouve-se pelo modesto alpendre e a voz baixa, mas de trinar suave, chama por um gato, este saracoteando-se vagarosamente, vem respondendo à chamada.
— Vá anda lá, toma…pois é, andas por aí, mas quando te cheira ao estufado és ligeiro como um lampo!
— Rinhauuu! — mia o gato amarelo, roçando-se nas pernas da mulher, acocorada dispondo na lata uma porção generosa da sua comida.
— Gato de luxo! A comer assim não vai querer ratos!
— Também falas bem! Bem sei que és tu quem o chamas para dormir na nossa cama!
— É para aquecer os pés!
A mulher relança o meigo olhar de céu ao marido e dá-lhe um toque com o cotovelo, sorrindo. O rosto dele ilumina-se, vindo-lhe à memória esse mesmo trejeito com que ela o cativara nos folguedos de S. João!
À roda da pequena aldeia e da casa do idoso casal a floresta era frondosa, envolvente quase num amplexo, ricamente obumbrada e ancestral. Como uma fronteira natural, protegia a singular povoação dos olhares desconhecidos e de outros acontecimentos aos quais parecia viver imune. Bordejavam-na neste abraço envolvente e reconfortante, os castanheiros, os carvalhos e sobreiros, as aveleiras e as nogueiras, como tentações oferecidas sem exigirem cuidados aos aldeões que colhiam os frutos para seu deleite nos dias longos e frios. O gado também era tentado para ali pastar, engordavam com as pastagens verdejantes que medravam com a humidade da floresta e iam entretendo o ruminar da erva com os frutos adocicados e estaladiços, em troca estrumavam a sadia mata que a atapetava. Humanos e animais eram atraídos para cuidarem da floresta e dela se satisfazerem com estas iguarias, sombra e sossego.

A juventude do casal foi vivida em pacífica comunhão. Herdaram a pequena casa dos progenitores, no entanto, perdera-se na memória do tempo os anos que esta contava, tendo pertencido aos avós, bisavós e outros demais antepassados da mulher.
A vida não fora excessivamente dura para com eles, diziam, sempre houvera para comer, algumas enfermidades, que graças à mestria da anciã da aldeia no manipular de ervas, unguentos e infusões tudo se curava. Na sua vida em comum, nos tempos de mocidade, havia só um pequeno espinho, que de quando em vez se agitava, ao enterrar-se um pouco mais nos seus corações, trazendo o desejo numa saudade da ausência de uma criança que germinasse no ventre da rapariga e enchesse os seus dias de mais amor, carinho e cuidados maternais.
— Não chores! Deus quis assim... Não sabemos o que nos aguardaria se filhos tivéssemos…
— Talvez seja eu quem não tos possa dar. Escuta António, talvez seja melhor deixares-me. Queres tanto ter um filho…
— Cala-te rapariga! Quero-te muito, seria incapaz de te deixar…não temos filhos! Pronto, acabou-se! Temo-nos um ao outro. Temos os nossos animais, a nossa horta...
— Não é a mesma coisa. O amor por uma criança é diferente.
— O amor é aquilo que nos faz cuidar, mimosear, fazer com que tudo cresça e floresça com os nossos cuidados e atenções. Não o vês? Quando se deita as sementes à terra e se não a cuidar, regar e podar as plantas e legumes, eles não medram? Se os animais não forem apascentados, tratados das maleitas, andarem p’ra aí sem acalento, morrerem de fome ou doenças ou comidos pelos lobos! Isto o que é?
— Amor! Eu sei António, eu sei…
— Vá anda cá. Limpa as lágrimas desses céus que tens na face e vamos à festa das colheitas!
— Olha! A aveleira já está pronta para ser plantada! – comentou a jovem mulher, mostrando entre as mãos um broto que despontava num recipiente improvisado para receber alguma terra e o fruto-semente.
— Olha que beleza, vamos lá agora e depois vamos à festa.

Trinta anos haviam passado, a memória trazia-lhe esta recordação como um lembrete para a tarefa que ao longo destes anos cumpria todas as semanas no verão. A outrora jovem e agora idosa estava à janela da cozinha, esquecida. Sem acordo de si ia mecanicamente passando o pano na loiça, enquanto contemplava o horizonte entrecortado pelas silhuetas da floresta.
“Amanhã vou lá! Talvez tenha crescido mais um pouco!” – pensou, enquanto as suas memórias a levavam, novamente, para o dia em que ela e o marido tinham semeado a bela aveleira.

 

CONTINUA

 

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