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A Cor da Escrita

Páginas onde a ilustração e o desenho mancham de cor as letras nascidas em prosa ou em verso!

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Solstício de Verão

21.06.23, Olga Cardoso Pinto

Design sem nome.png"O final da tarde chegava de mansinho, mas o sol, ainda alto, tornaria este dia no mais longo do ano. Lá longe, perto do rio, preparavam-se as fogueiras que seriam purificadoras para quem as saltasse e afoitavam-se as gentes no cozinhar da ceia para festejar o solstício de verão - não faltaria o peixe, esse ser do rio, o pão força para o corpo e o vinho dádiva da natureza e transformada pelos homens.
Nabica carregava Brígida ao colo, a seu lado caminhava Dulce que levava na bolsa do cinto a foicinha de prata e no braço o cesto do ritual de colher as ervas medicinais – o manjerico e o visco, tinham-nas colhido ao nascer do dia. Ausinda, mais afastada por não conseguir acompanhar o andar das jovens mulheres, levava no seu cesto papoilas e camomila para queimar como oferta ao sol e a Endovélico*. Todas elas levavam ao pescoço um lenço amarelo tingido com cascas de cebola. Alegremente cantavam e juntar-se-iam às celebrações sob as copas dos carvalhos com o rio serpenteando por perto. A idosa apreciava à distância as duas jovens, queria-lhes como filhas, e naquele dia sentia-se feliz por ver Nabica, finalmente, a recuperar a sua vivacidade, o seu gosto pela vida e pela filha adorada!"

Iam as três animadas, embora Ausinda revelasse algum cansaço. Fora um dia muito preenchido, como sacerdotisas celtas tinham iniciado as suas atividades dedicadas ao seu culto desde o nascer do dia. Cultuaram as divindades com oferendas e cânticos, em especial a Endovélico pedindo-lhe proteção e saúde, a Lug divindade solar que dá força à terra para gerar as culturas, a Atégina solicitando a sua bondade para com os solos férteis, a Nabia deusa das águas correntes para que estas não faltassem para a terra e a Sucellos para que protegesse a agricultura e as suas amadas florestas. De forma recatada fizeram as suas celebrações, sem sacrifício de animais, há muito que o tinham abandonado com receio de serem acusadas de heresia pela igreja e pelos vizinhos cristãos.

 

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*Endovélico: O grande Deus dos Lusitanos. Adorado pela sua versatilidade. Deus da medicina, da cura e da terra, do mundo subterrâneo, protetor da vida após a morte. O seu culto era abrangente em toda a Península Ibérica, sendo que também os Romanos o adotaram aquando da sua chegada à Península.

 

Excerto do romance O Abraço do Freixo, por Olga Cardoso Pinto

 

 

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